Mostrando postagens com marcador Humor. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Humor. Mostrar todas as postagens

sábado, 25 de agosto de 2012

Foi o Alzheimer


Minha sogra tem Alzheimer. Quando o médico deu a notícia, ela deu um sorriso e sentenciou:

 - Ainda bem que não é Parkinsons. Mil vezes não saber onde deixei a garrafa de cachaça, do que derramar ela no chão sem conseguir beber...

 - Mamãe! – exclamou meu marido – A senhora não bebe!

 - Ah, não é? – fez uma cara confusa e emendou – Xi! Deve ser o Alzheimer.

 E assim, ficou lá em casa.

 O tempo foi passando e a velha fazia as coisas mais loucas que se possa imaginar. Um dia, enquanto Jorge lavava o carro, em um momento de distração, ela entrou, ligou o motor e saiu em disparada pela avenida. Deixou o carro morrer no fim da rua e conseguimos alcançá-la. Meu marido deu-lhe uma bronca, dizendo que ela não sabia dirigir, que poderia ter machucado alguém. E ela:

 - Eu não sei dirigir? Xi! Deve ser o Alzheimer...

 Jogou o gato na lavadora e quase matou o bichinho. Quando reclamei, ela apenas disse:

 - Não pode lavar o gato na lava-roupas? Xi! Deve ser o Alzheimer.

 Pouquíssimo tempo depois já estava aprontando outra cagada e a desculpa era sempre a mesma:

 - Xi! Deve ser o Alzheimer...

 A professora do meu caçula ligou lá para casa, exigindo a presença de um dos pais na escola. Cheguei lá e a mulher encontrava-se em estado lastimável. Imaginei que monstruosidade meu filho poderia ter cometido, mas ela disse que o que a aborrecera foram as pequenas coisas. Todo dia, alguma coisa ou outra, ela chamava a atenção e ele, com a cara mais cínica do mundo, replicava:

 - Ah! Não pode bater no coleguinha? Xi! Deve ser o Alzheimer...

 - O que irrita, mãe, é a cara deslavada que ele usa, como se não fizesse a menor importância levar uma bronca...

 Prometi à professora que iria ter uma conversa com ele e corri para casa, morta de vergonha. O garoto urinara na sala, batera nos coleguinhas, xingou a professora, vivia dizendo palavrões que nem em casa dizíamos, enfim aquele não era o meu filho!

 Conversamos com ele, Jorge e eu. Depois da bronca, sabe o que ele disse?

 - Xi! Deve ser o Alzheimer...

 Chamei meu cunhado para um almoço, pois eu planejava deixar a velha em um abrigo. Não que ela fosse tão incômoda, mas estava atrapalhando muito a nossa vida. Espero que entendam que não sou nenhum monstro, procurei logo a melhor casa geriátrica da cidade. Ao saber do custo mensal, pensei que meu cunhado pudesse dividir a despesa conosco.

 Eles vieram, almoçaram, brincaram, conversaram. Na hora do cafezinho, sutilmente entrei no assunto. Foi só aí que coloquei o Jorge a par da minha idéia. Devo confessar que fui muito sutil, disse que havia visto um comercial da casa de repouso, que talvez valesse a pena uma visita. Nem tanto o Jorge, mas seu irmão é que ficou indignado.

 - O quê? Colocar a mamãe em um asilo? Vocês enlouqueceram?

 E muito blá-blá-blá depois, meu cunhado Antônio foi taxativo: não aceitaria, em hipótese alguma, que a mãe fosse despejada em um asilo. Nós ficaríamos com ela até que ele terminasse a obra em casa, onde construiria mais um quarto. Depois disso, a cada seis meses cada um ficaria com ela. Meu marido concordou.

 Não posso dizer que sou sempre assim, mas tem horas em que o mundo parece estar jogando contra.

Durante a semana, na primeira merda que a velha fez, coloquei ela dentro do carro e a levei para um passeio na casa do Antônio. Conversa vai, conversa vem, o tempo passou. Brincamos, rimos, conversamos. Lá pelas tantas, disse que iria na farmácia comprar um remédio e que já voltaria para buscar minha sogrinha.
 Entrei no carro e despenquei para casa. Algumas horas depois, o telefone tocou. Era o Antônio:

 - Marisa! Você esqueceu de levar a mamãe...

 E eu:

 - Ih! Esqueci, é? Xi! Foi o Alzheimer...


J.Miguel 
11 de  Janeiro de 2005




Anne e Phil

 A mudança com a mobília velha chegou e na rua, mesmo os mais discretos, ficaram curiosos. Não é todos os dias que vemos um casal de meia-idade ocupando uma nova casa. Aparentemente não tinham filhos, embora estivessem na idade dos que têm netos.

 Eram pessoas caseiras. Quase não os víamos na rua. Quando isso ocorria, nunca estavam juntos. Os moradores mais antigos, hospitaleiros, sempre davam as boas vindas.

 - E aí? Estão gostando da nova casa? – perguntava um.

 - Eu estou – respondia a esposa – Mas o Phil disse que a padaria fica distante.

 - Na rua anterior, a padaria ficava mais próxima – respondia o marido – mas creio que a Anne está fascinada com o jardim.

 Assim, em breve a rua soube que havia um simpático casal na rua: Anne e Phil. E toda a rua já estava acostumada a referir-se a eles como Anne e Phil, até que aconteceu a primeira reunião de moradores. Ambos foram convidados.

 - Gostaria de pedir aos presentes que dessem as boas vindas aos novos moradores, Phil e Anne.

 Todos aplaudiram, dando as devidas boas vindas. Estranhamente, apenas o Phil levantou. Meio sem graça, disse:

 - É uma satisfação estar aqui e conhecer vocês, mas o meu nome é José Carlos.

 Anne levantou e em um meio sorriso, completou:

 - E eu sou a Maria Eduarda. Os amigos me chamam Duda. – e sentou outra vez.

 Ficamos todos sem jeito, como alguém que cometera uma tremenda gafe. Até que dona Quitéria, a pessoa mais inxerida que já conheci, ponderou:

 - E de onde vem essa história de Anne e Phil?

 Sorrindo, José Carlos explicou:

 - Não é Anne. É Ani. De ANIMAL.

 E ela:

 - E é Phil de “FIU” DA PUTA!

 J.Miguel
27 de Dezembro de 2004


Vida Amarrada II

O retorno do Cacique Pau-de-Bater-Em-Doido (Lenda Dupiniquim)
 É do Piniquim mesmo...

Conta uma velha lenda da tribo Dupiniquim (que só Deus sabe como esse autor que vos escreve aprendeu!), que Touro Agachado e Perereca Fogosa estavam tão apaixonados que foram procurar o Pajé Cabra-da-Peste para que lhes desse uma mandinga ou patuá, que eternizasse sua paixão.

O pajé, que estava bebendo a terceira das quatro garrafas de cachaça que trocara com o homem branco pelas suas duas filhas adolescentes, pitou o cachimbo recheado de cânhamo, cheirou uma carreirinha dum pó branco que estava sobre o espelhinho que trocara pela última esposa e  sentenciou:

-Tem uma coisa, mas é muito difícil mizifio! Primeiro, tu, Touro Frouxo, vais até a serra do Macaco Priáptico e colocas a cabeça em um  buraco por duas noites e dois dias. E tu, Galinha Safada, entra na minha tenda e deita na minha rede, que eu já vou lá...

-Errr... Pastor! Meu nome é Touro Agachado e o dela é Perereca Fogosa...

- Foi o que eu disse Chifrudo Tonto... e Pastor é a mãe!

Para não entrar em uma discussão com o sábio, o guerreiro empreendeu a caminhada de dois meses até a Serra do Macaco Priáptico. Lá chegando, encontrou um buraco e manteve heroicamente a cabeça dentro por dois dias. Heroicamente, porque Tupã, o irmão de Baco, chegado numa sacanagem, mandou os macacos fazerem fila na bunda docoitado. Dizem que teve até um mico que colocou uma plaquinha ao lado das nádegas gloriosas: "SEXO CASUAL, AQUI!". Isso sem contar os mosquitos e as abelhas, que de tudo fizeram para demover o glorioso guerreiro de tal empreitada.

Findo o prazo, Touro Agachado retornou bravamente para a aldeia, onde Piranha Safada, ops! Perereca Fogosa o aguardava, com um bucho de três meses. Desiludido, Touro Agachado voltou para seus macacos, que ao menos o tratavam com muito carinho e consideração.

Moral da História: tenho que descobrir o que andam colocando nesse negócio que eu tô fumando.

J.Miguel 
27 de Setembro de 2004

O Encontro do Rapaz de Curralinho Com a Moça de Pau Grande


Amigos:
Estou contando a minha história, encorajado por uma que acabo de receber. Sou natural de uma cidade do interior chamada Curralinho. Conheci uma moça pela internet, em uma sala de bate-papo, cujo apelido era MENINA DE TROMBA. Eu pensava que esse nick era por que ela estava sempre trombuda, macambúzia. A moça era do Rio de Janeiro, de uma cidade chamada Pau Grande, a terra do Garrincha. Um dia marcamos encontro. Todo mundo na sala ficou sabendo do encontro do rapaz de Curralinho com a moça de Pau Grande.
Pensando na minha segurança, marcamos o encontro em um posto de gasolina na estrada, parada de caminhoneiros. Peguei minha bicicleta incrementada, coloquei uma garrafa de cachaça na garupa e rumei para o encontro. No meio do caminho, vi um sujeito vendendo pneus de bicicleta e comprei um, que coloquei no ombro. Era uma pechincha!
Ao chegar lá, no local indicado, havia um rapaz loiro, alto, forte, peito cabeludo, uns olhos azuis da cor do céu, ombros largos, que se apresentou como irmão da Menina de Tromba, que tinha vindo para me levar até ela.
Montei na minha bike, com a garrafa de cachaça no bagageiro e o pneu no ombro. Segui o rapaz, que foi caminhando ao meu lado. Eu até ofereci uma carona para ele, mas não aceitou. Eu disse:
- Se você quiser, pode montar aqui, atrás de mim...
Mas ele fez que não com a cabeça, balançando seus lindos cabelos loiros.
Me levou até um local ermo e apareceram mais dois sujeitos, que me agarram pelos braços.
Nesse momento, pensei: “Tô lascado!”
Um deles falou: “Vamos levar o que você tiver de valor!”
E eu pensei novamente: “Minhas pregas!”
Mas um deles já foi pegando a bicicleta. O outro falou: “Passa o anel pra cá!”
Eu já ia baixando as calças, quando um deles me deu um tapão na fuça, me segurou a mão e quase arrancou meu dedo, tentando tirar um anel do meu anelar.
Eu falei: ”Ah! É esse anel?”
O outro rosnou: ”Vai passando a rodinha!”
Lá fui eu baixando as calças de novo e outro tapão nas ventas. O cara me olhou esquisito e me tomou o pneu novinho que acabara de comprar.
O terceiro falou: “Passa a rosquinha pra cá!”
Novamente comecei a baixar as calças, enquanto pensava: “Agora lascou-se tudo!”
Tomei outro porradão. O cara meteu a mão na sacola com a garrafa de cachaça e ficou chateado. “Aqui só tem uma garrafa de cachaça! Não tem biscoito, doce, bala, nada! Só a cachaça!”
O terceiro deles, um negão imenso, forte, espadaúdo, parecia um touro de forte, com uma bermuda apertada, naquelas coxas grossas, colocou uma das mãos na minha nádega e falou: “Eu quero isso aqui...”
Aí eu pensei: “É agora que a vaca vai pro brejo!”
Foi nada! Ele meteu a mão no meu bolso e tirou a minha carteira. Levou a foto do Vampeta que eu tinha.
Me largaram ali, no meio do mato, humilhado. Eu ainda perguntei:
- Err... moço... devo ficar aqui esperando pela Moça de Tromba?
O loiro respondeu, meio entre os dentes:
- Era Moça de Trompa, idiota! Trompa! Trompete...
Não entendi, mas fica o meu recado: Gente de Curralinho! Cuidado com os rapazes de Pau Grande! 

Minha Independência

Em certos momentos da vida, quando pensamos que está tudo da melhor maneira possível, vem sempre o efeito borboleta e desorganiza tudo.

Arrumei meu último livro na prateleira e sorri satisfeito. Finalmente conquistara a minha tão sonhada independência. Acabara de me separar, depois de um casamento de dezoito anos e terminara de mobiliar e arrumar o meu novo lar, um pequeno apartamento defronte à praia de Botafogo. Era pequeno, mas só meu.

Retirei os sapatos e as meias. As meias, enrolei cuidadosamente para colocar no cesto de roupas sujas, quando tive a minha primeira sensação de liberdade e mudei de idéia. Joguei os sapatos na sala e as meias no canto, ao lado da cama, tendo o cuidado de separá-las primeiro. Tirei as calças e fiquei andando de cuecas pela sala. Sentia que precisava cometer alguma loucura para completar minha liberdade. Primeiro, levantei a tampa do vaso. Depois desforrei a cama. Em seguida, esparramei algumas roupas pela casa, só para me sentir bem.

Não havia nem duas horas que me encontrava naquele torpor, naquela sensação de felicidade indizível, quando o celular tocou. Era minha tia. Devia ter percebido o quanto ela estava gagá naquele instante, pois faziam três anos que não falava comigo. Me disse o quanto lamentava pela minha separação e que desejava me visitar.

Minha tia tem setenta anos de idade e parece um faquir de tão magra. Mede pouca coisa menos que um metro e meio e ainda por cima, é vesga. Tem um nariz adunco e fantasticamente avantajado. Vive sozinha desde que ficou viúva. Nenhum dos filhos jamais a suportou por uma semana. A última notícia que tive dela foi de que sonhara que estava sendo assaltada e se atracara com os bandidos, três homenzarrões enormes, armados até os dentes e dispostos a violentá-la sexualmente. Tudo seria natural, se ela não acreditasse que aquilo realmente aconteceu. Por conta disso, passei maus bocados, pois ela cismou que eles a atacaram sob minhas ordens. Alguns doidos da minha família chegaram mesmo a me ligar para saber o que acontecera. Pouco tempo depois, soube-se que um carro suspeito, com três homens dentro, fora visto rondando a rua onde ela morava e, em um acesso de insanidade, imaginou a luta com os facínoras e a tentativa de estupro. Nem que fossem mais doidos que ela! Até que gosto dela, mas a velha é o Cérbero chupando manga, com as três bocarras! Desde então, passei a evitar os locais onde ela pudesse se encontrar, não por mágoa, mas proteção à minha reputação. Vai que ela tem outro delírio.

Pois bem, qual não foi minha surpresa ao saber que ela queria me visitar justo no meu primeiro dia de independência. Meio sem jeito, concordei. Perguntei se ela queria que eu a buscasse, mas me respondeu que viria de táxi. Dei o endereço e fui arrumar a minha bagunça. Meia hora depois, pancadas secas na porta anunciavam sua chegada. A surpresa ficou por conta da quantidade de malas que a acompanhavam. Viera para ficar. Lembro de ter olhado para o alto e perguntado a Deus:

- Por que eu, meu Deus?

Mostrei-lhe a minha cama e combinei que eu dormiria no sofá. Certamente ela não conseguiria ficar até o fim de semana. Deitei no sofá e fiquei remoendo minha triste sina. Primeiro dia vivendo sozinho... O sofá era terrivelmente desconfortável. Nem sei a que horas peguei no sono. Acordei com a claridade do sol entrando pela janela. Olhei para o relógio e vi que já passava do meio-dia. Minha tia entrou nesse exato instante, aparentemente voltando da praia, trajando um biquíni fio dental menor do que o meu polegar. Usava um óculos escuros que deviam alcançar o meio da testa. Nem em sonho disfarçava o tamanho do nariz. Ao invés disso, pronunciava-o ainda mais. Para completar o quadro, seus pêlos pubianos espalhavam-se esbranquiçados pelas virilhas. Aquilo era a visão do inferno! Afundei o rosto no travesseiro.

De maneira muito rápida ela disse que sabia que deveria se depilar, mas não havia encontrado meu barbeador. Sorte a minha.

Segunda-feira cheguei em casa do trabalho ao anoitecer e a encontrei se preparando para sair. Usava uma espécie de capa de chuva e levava uma bolsa ao ombro. Não quis me dizer onde iria. Achando que ela voltaria logo, adormeci no sofá.

O telefone tocou às duas da manhã. Era da Delegacia. Estavam me pedindo para ir buscar minha tia.

Cheguei na DP e havia uma multidão por lá. Bem no fundo, sentada em um banco encostado na parede, minha tia, vestida com um maiô azul, vermelho e branco, parecido com a bandeira dos Estados Unidos, totalmente enterrado na bunda. Seu pêlos ainda esparramavam-se fartos. Depois de me identificar, um policial me arrastou pelo braço para um canto e ameaçou me prender por maus tratos a um idoso, se a encontrasse novamente na rua, vestida daquele jeito. Ela fora vista vestida de Mulher Maravilha perambulando pela cidade. A todos mostrava sua arma secreta, que era um pênis de borracha enorme.

- Eu só queria ajudar... prender uns bandidos... – sua voz chorosa me partiu o coração.

- Tá bom, titia – ponderei – mas agora tem que me prometer que não vai mais sair vestida de Mulher Maravilha...

- É claro que não vou fazer mais isso! – exclamou, para emendar em seguida – Que sobrinho mais burro!
Enquanto saíamos da delegacia, diversos jornalistas nos fotografavam.

- Sobrinho burro, policiais burros... – resmungou.

- O que foi, tia? Por que os policiais são burros?

Meteu a mão na bolsa:

- Esqueceram de reter a minha arma... – e ficou balançando o monstruoso dildo.

Tentei tomar de suas mãos aquele objeto, mas ela bateu com ele na minha cabeça. De que diabos esses consolos são fabricados? Chegando em casa, indaguei se ela estava sendo sincera ao prometer não sair mais para combater o crime no Rio de Janeiro.

- Eu não prometi isso – ponderou – prometi não me vestir mais de Mulher Maravilha, porque estragaram meu disfarce.

E tem gente que pensa que sua semana foi ruim. 

Uma Semana de Cão

Minha semana começou assim:

Segunda-Feira:

Às três da manhã minha mãe me liga para saber o telefone celular do meu irmão. Ainda na cama, peguei os óculos na mesinha de cabeceira, abri a caderneta e passei-lhe o número. Larguei os óculos sobre o leito e adormeci com o telefone na orelha.
Quando estava pegando a caderneta, esbarrei no despertador, que travou sem que eu o percebesse.

09:50 h.
Acordei sobressaltado com o barulho da empregada na cozinha. Olhei as horas e não acreditei. Saltei da cama lançando os óculos ao chão, quase ao mesmo tempo em que os pisava, quebrando-os. Corri para o banheiro para fazer a barba o mais rápido possível. Estava agendado para as nove horas uma reunião com os gerentes de setor sobre um problema da empresa, intitulado: "A FALTA DE PONTUALIDADE DOS EMPREGADOS E SEU CUSTO PARA A EMPRESA". O tema era meu...
Não me perguntem como, mas fazendo a barba consegui cortar o nariz e metade de uma sobrancelha. Devo confessar que sou quase cego sem os óculos. Tentei consertar usando o lápis de sobrancelha da minha esposa.
A empregada, uma senhora de meia-idade, usa um óculos de mesmo grau que o meu, ou quase. O chato é que eles são antigos, da época das discotecas. Tem aquele formato de gatinha, aros rosa-choque e pedrinhas coloridas. Mas eu não tinha tempo de passar em um oculista. Afanei os óculos da empregada e saí para a rua. Por vergonha de ser visto dirigindo usando aquela armação, fui de taxi para o trabalho.
Desci na calçada defronte ao prédio exatamente às 10:15 h, na hora em que uma senhora gorda saía da lanchonete com um sanduíche gorduroso, empanturrado de cebolas e catchup. Foi um esbarrão daqueles! A salsicha  veio parar no bolso da minha camisa, que ficou toda emporcalhada de cebola e creme de tomate. E eu ODEIO cachorro-quente!
Penalizado com a minha situação, o porteiro gay do edifício me emprestou uma camisa amarela e sua gravata verde abacate.
Eu estava uma pilha. Confesso que quase chorava. Como poderia aparecer diante dos gerentes de toda empresa vestido daquele jeito e ainda atrasado?
Me deram um calmante e nem pestanejei. Tomei um copo de um refresco de groselha do porteiro para ajudar a engolir.
O porteiro notou que minha calça também estava suja, na altura do zíper . Ali não teve jeito. Tive que lavar mesmo. Para secar mais rápido, coloquei uma folha de jornal amassada por dentro da calça, enquanto subia  pelo elevador.
No elevador, examinei a minha figura no espelho e notei que até que não ficara mal com aquela camisa amarela e a gravata verde. Os óculos de aro rosa, em forma de olhar de gatinha, com aquelas pedrinhas coloridas também combinavam com a minha sobrancelha desenhada. E tudo combinava com os lábios rosados pela groselha... na verdade, o elevador estava tão bonito... o mundo era tão bonito... me deu vontade de chorar de felicidade.

11:15 h:
Saí do elevador meio cambaleante... que remédio porreta! Acho que eu estava cantando quando entrei na sala de reuniões. O superintendente geral estava na cabeceira da mesa. Fui para minha cadeira, pedindo desculpas a todos pela demora e sentei... no colo de alguém. Era o chefe de RH.
Não sei bem exatamente o que disse durante a reunião, mas o superintendente não parava de me olhar. Até que percebi que havia esquecido de retirar o jornal de dentro das calças. Aquilo me dava um volume monstruoso!
EM algum momento do meu falatório esbarrei no copo dágua à frente de um colega e o líquido se esparramou por sobre suas pernas. Rapidamente, peguei um guardanapo e tentei secar a calça do colega, que deu um tapa nas minhas mãos. Acho que ele pensou que eu o estava assediando.

12:00 h.
Olhei para o relógio e não compreendi direito como estava sentado na calçada do prédio. Lembro assim, meio vagamente, de ser arrastado para fora da sala, com o superintendente berrando "FORA! FORA! RUA!..."
Uma senhora passou e jogou uma moeda no meio das minhas pernas.
Um guarda municipal me pegou pelo braço e me arrastou para um ônibus que me levou para um abrigo de mendigos. A língua estava meio presa na boca. quando tentava falar, meio que grunhia. No fim da tarde, um grupo de mendigos conseguiu fugir do abrigo e me arrastaram junto. Sentamos em uma praça e ficaram todos conversando. Um  grupo de estudantes veio e tirou algumas fotos.

Terça-feira:
Acordei deitado na calçada, abraçado a um mendigo enorme, que cheirava como um bueiro em dia de chuva.
Minha carteira, dinheiro, relógio, documentos, sapatos, tudo sumira. Ficara apenas com a camisa amarela, a gravata verde, os óculos de gatinha (por que será que não os roubaram?) e a calça com uma mancha enorme, como se eu houvesse me urinado.
Sentei no banco da praça e fiquei pensando em nunca mais voltar para casa. Outra senhora idosa me jogou mais uma moeda.
Estava morto de fome e o mendigo com o qual dormira me trouxe um sanduiche de ovo e uma garrafa de cachaça. Bebi no gargalo mesmo. Devo ter bebido bastante, porque não lembro de mais nada desse dia.

Quarta-feira:
Acordei de novo abraçado ao mendigo. Almoçamos juntos e bebemos mais algumas garrafas de cachaça.

Quinta-feira:
Passei a noite em claro. Marreta - esse era o apelido do mendigo - passou a noite fora. Foi muita falta de consideração dele. Tivemos uma discussão e ele me bateu. Levantei muito chateado e resolvi voltar para casa.

Quinta à noite:
Cheguei em casa andando e inventei uma história de que fora seqüestrado. Era mais fácil de explicar.

Sexta-feira:
Minha foto saiu na capa de uma revista sobre gays abandonados na terceira idade.

Sábado:
Minha mulher, meus filhos e a empregada foram embora. O Marreta que fez o almoço. Como ele cozinha mal!

Ganhei na Loteria!

Ganhei na loteria. Não foi nada o suficiente para dar um pontapé no traseiro do imprestável do meu cunhado e o expulsasse da minha casa, ou de largar ele, a irmã dele, minha sogra e os outros sanguessugas que vivem sob as minhas expensas. Nada disso! Para meu pesar, foi apenas um prêmio bom, mas não dava para começar uma vida nova ao lado de nenhuma modelo. O suficiente para comprar um carro popular. Mas que besta seria eu se fizesse isso! Certamente o cunhado convenceria minha esposa a ficar com o carro (que logicamente ele dirigiria), eu continuaria com o meu carro velho e teria as despesas adicionais de combustível, taxas e o que é pior: as multas. Não! Certamente, carro nem pensar!

Reuni a família na sala de casa para discutirmos o melhor destino para o dinheiro. Bem que desejava que fossem apenas os titulares da casa, mas até o cachorro deitou no tapete.

Em rápidas palavras, contei que havia recebido uma certa quantia e desejava saber a opinião de todos quanto ao destino do dinheiro. O primeiro a falar foi o namorado da minha filha:

- O senhor podia fazer um puxadinho na casa e colocar uma porta no quarto da Diana para a frente, assim, nós poderíamos sair e chegar sem perturbar ninguém...

Tenho certeza que o meu olhar perfurou os olhos do atrevido. Mesmo assim, não pude deixar de colocar minhas convicções em pauta:

- Eu não sei se o seu pai permite que a sua irmã entre e saia de casa sem ser notada, mas aqui em casa a coisa é diferente. E tira a mão da coxa da minha filha!

Não quero ser um pai retrógrado, mas a garota só tem quinze anos! E já tem brinco em tudo quanto é parte do corpo!

Mais que tentando mudar de assunto, minha esposa mandou sua sugestão:

- Poderíamos trocar toda a mobília da casa...

- De novo?! – exclamei – Ainda nem terminei de pagar as prestações da mobília que compramos quando sua mãe veio morar aqui...

Minha sogra resmungou algo como: “Tá vendo? Eu não disse que ele reclama de eu estar aqui?”

Minha filha mandou pesado:

- O senhor podia pagar a plástica da mamãe. E o implante de silicone...

- O implante de silicone eu já falei: estou juntando o dinheiro para um dos peitos. Depois de três anos juntando mais dinheiro, a gente coloca o outro...

Começou o bate-boca de sempre, que eu era um imprestável, um desalmado e aquelas outras abobrinhas que sempre ouço, até que, meu cunhado, em um lampejo de lucidez, sentenciou:

- Olha, gente! Não pode ser uma coisa individualizada, para um ou outro. Nem algo que dure apenas uma semana ou duas, como um passeio. Tem que ser algo para todos e que dure muito... que tal uma piscina?

A algazarra se estabeleceu. Enquanto minha filha e o namorado pulavam, gritando “piscina, piscina”, minha sogra deu um beijo na testa do meu cunhado, meu filho caçula ficou pulando no sofá e o cachorro rodava atrás do rabo, estragando o tapete.

Meu cunhado ficou encarregado da construção. Eu bem que fui totalmente contra a idéia, mas sou voto vencido em minha casa. Contratou um grupo de cachaceiros e começaram a cavar. Apenas para encurtar a história, dois meses e quinze mil reais depois, mais exatamente esse fim de semana, inauguramos a piscina. Não sou muito entendido no assunto, mas é a piscina mais horrorosa que já vi. É bem pequena, com horrorosos ladrilhos coloridos. Não tem nada daquelas lajotas azuis ou brancas. São diversas lajotas com o escudo do flamengo, que é o time do meu cunhado. Em volta da piscina, no “deck”, ou melhor “déqui” como ele diz, são metros e metros de lajotas lisas com o escudo do Flamengo. Resultado: ninguém pára de pé à beira da piscina. Se é que posso chamar aquela porcaria de piscina.

Sexta à noite, depois do trabalho, passei no açougue e comprei carne para um churrasco de inauguração do nosso parque aquático, como diz minha sogra. Será que ninguém percebeu que a piscina é do tamanho de uma banheira?

Sábado, seis da manhã começaram a bater no portão. Tocaram a campainha, mas não está funcionando. Meio sonolento, atendi. Ao abrir o portão, quase caí para trás. Um mundo de gente me empurrando:

- E aí, “seu” Nestor! Viemos inaugurar a piscina...

Eu não conhecia ninguém ali... já foram entrando e se alojando. Ao menos, alguns trouxeram cadeiras de praia.

TABUF! O primeiro escorregão. Era uma senhora enorme de gorda. O ladrilho rachou onde ela caiu. Uma mulher toda emporcalhada de um óleo avermelhado foi ajudá-la a levantar e também caiu. Uma criança com uma câmara de ar de pneu de caminhão pulou na água. Coloquei a mão na cabeça e tive uma idéia. Sorrateiramente, fui até o canil e soltei o cachorro. Esperava que ele mordesse ao menos um. TABUF! Escutei enquanto caminhava para os fundos da casa.

Soltei o cachorro e fiquei aguardando sorridente os gritos que coroariam minha vitória. TABUF! Outro tombo...

Os gritos continuavam, mas nada de pânico. Fui conferir e o desgraçado do cachorro estava nadando na piscina, junto com o povaréu. Fiquei pensando em colocar chumbinho na ração do miserável.

Resolvido, dirigi-me à casa. Quem tivesse convidado aquele pessoal teria que os colocar para fora. Passei por uma turma na cozinha, preparando sanduíches. Fui direto ao quarto, chamar minha esposa. Ela não estava. Entrei no quarto da minha filha para perguntar pela mãe e encontrei o asqueroso do namorado dela deitado na cama. Ela também não estava. Dei um tapa na cabeça do sujeito e mandei que ele ralasse dali.

Abri a porta do quarto da minha sogra no exato momento em que ela jogava os pés para o alto, tentando entrar em um maiô pelo menos uns quatro números menor que o dela. O que vi? Nossa! Só de lembrar me arrepio todo! Foi a visão do inferno! Era algo assim como um misto de barriga, bunda, celulites, duas enormes tetas e muitas varizes. Nada arrumado, se é que me entendem. Ah! E um umbigo enooorme. Certamente era do tamanho da piscina.

Fiquei estático na porta. O terror foi tamanho que o sangue congelou nas minhas artérias. Não conseguia me mexer. Não sei como ela interpretou minha atitude, de ficar ali parado, mas certamente não condizia com a realidade. Me jogou alguma coisa que estava na cabeceira da cama e ficou gritando:

- Sai daqui, tarado! Pervertido!

Ainda com os cabelos arrepiados, saí.

Só nesse momento me dei conta da multidão que circulava pela casa. Um garotinho coberto de óleo e terra, com a mão entre as pernas mijava no canto da parede da sala.

Segurei o garoto pelos ombros:

- Menino! Você mija na sala da sua casa? Nessa casa tem banheiro, sabia?

Com a cara assustada ele fez que não. Nem deu tempo de saber não o quê. Um sujeito, aparentando uns dois metros de altura, encostou no mesmo canto e começou a urinar também. Aquilo era demais. Resolvi ir embora de casa. Entrei no quarto e comecei a fazer as malas. Não importava para onde iria. Só queria sair dali. Perdi um tempão procurando as chaves do carro, até que a mulher entrou e avisou:

- Meu irmão foi com uns amigos comprar cerveja e levou o carro...

- Mas a padaria é na esquina!

 - Ele foi comprar no mercado, que é mais barato. Aliás, coisa que você devia ter feito ontem.

 Lá fora, agora ouvia um pandeiro e um coro de vozes desafinadas:

 - Minha égüinha pocotó! Pocotó, pocotó, pocotó... TABUF!

 Peguei as malas e sentei na calçada, enquanto esperava o cunhado voltar com o carro. A cada momento chegava uma nova cara. Do lado de dentro do muro, só um som me aprazia: TABUF!

 A noite começou a cair e meu cunhado não chegava. Entrei para ligar para a polícia e dar queixa do roubo do carro, mas havia alguém pendurado no telefone:

- É! Uma festa! Na piscina, na casa do Filé...

Filé é o apelido do meu cunhado. Na verdade o apelido era Filão, fui eu quem o colocou. Alguém tirou o aumentativo.

 Tentei usar o telefone, mas o sujeito foi taxativo:

 - Aqui, mermão! Esperei duas horas prá usar o telefone. Agora vê se espera sua vez na fila...

 O pessoal na fila também reclamou. Fila? Foi só aí que eu percebi que tinha fila pro telefone.

 O cheiro de urina na sala estava insuportável.

Peguei minhas malas e saí portão afora. Fui para a rodoviária e comprei passagem no primeiro ônibus para fora da cidade. Enquanto me encaminhava para o embarque, um vendedor de loteria tentou me vender um bilhete e dei-lhe uma porrada.

J.Miguel
09 de Janeiro de 2005
 

Porrada!

Quando os eletro-eletrônicos usavam válvulas, volta-e-meia surgiam problemas. Quem não lembra da velha televisão cuja imagem só ficava boa com uma sonora porrada? A explicação é bem simples, principalmente para quem já viu uma válvula.

 Válvulas eram, a grosso modo, lâmpadas. Possuíam vários pinos que encaixavam na placa onde trabalhariam. O problema era que, com o tempo, o material dilatava, os pinos ficavam sambando dentro de seus encaixes e começavam azinabrar. Com a porrada, os pinos desencaixavam, sofriam pequenos curto-circuitos e queimavam o zinabre, voltando a funcionar. Quem não lembra? O rádio saía da estação e tomava logo uma bela porrada. Pá! E pasmem! Funcionava que era uma maravilha!

 O tempo passou, vieram os transístores, os circuitos impressos e nada disso faz mais sentido. Ou não? Ou ainda tem alguém aqui que volta e meia dá uma sonora porrada no computador quando ele engasga? Bem, para ser sincero, eu faço isso. Embora digam que de nada vai adiantar, muito pelo contrário, penso que isso seja pura balela. Isso só vai danificar o pobre coitado, dizem uns. Mas, enfim, que se dane!

 Meu computador fica ao alcance de uma paulada. Aliás, mantenho um pedaço de pau ao lado do micro quando estou usando. Aqui em casa, bastou eu pegar um porrete que todos sabem que vou usar o micro. Afora os palavrões, é claro.

 Com o passar do tempo, o gabinete foi enviesando, entortando, saindo do esquadro. Parece a Torre de Pisa, resguardadas as proporções. As janelas ficam do lado de dentro, quando – depois de algumas porradas – se abrem.

 O técnico diz que não entende como é que acontece dos programas desinstalarem. Se querem saber, qualquer dia uso o porrete nele. O monitor também fica trocando as cores, mas nada que um bom soco na parte de cima não resolva. Aliás, já que cheguei a esse assunto, descobri que uma boa porrada resolve tudo. Dia desses, pela manhã, o carro não queria pegar. Abri a tampa do motor e, como não entendo patavinas daquele amontoado de ferro e fios, peguei meu porrete e desci o verbo. Depois de umas dez ou doze pauladas, o motor funcionou, sem nem mesmo eu precisar tirar a chave do bolso!

 No trabalho, a fotocopiadora parou de funcionar e sentei-lhe a porrada, mas não adiantou. Até que lembrei que não estava usando o instrumento adequado. Fui ao carro e voltei com meu porrete. Foi tiro e queda! Três boas pauladas e a máquina estava funcionando que era uma maravilha. Sinceramente, o vidro rachou, as cópias começaram a sair com um risco, mas que saíam, ah, saíam.

 O chefe disse que foi por causa da rachadura no vidro da máquina, mas eu tenho absoluta certeza de que, ao ver minha performance de um empregado multi-funcional, ele teve receio que o patrão me colocasse em seu lugar e fui demitido. Não me importei. Já tinha uma idéia em mente. Estava no elevador quando lembrei do meu porrete. Quase o ia esquecendo.

 Pendurei uma placa na porta de casa: “CONSERTA-SE TUDO!”.

 Vocês não podem imaginar a quantidade de serviços que tenho. Só de geladeiras eu consertei umas oito essa semana. E cobro bem barato: varia conforme a quantidade de porradas. Fogões, máquinas de lavar, microondas. Ah! Bem lembrado! Aviso aos usuários: nunca dê um tapa na lateral de um forno de microondas ligado. O choque faz você ficar azul e pulando igual uma perereca! Depois que pára de pular, você ainda fica uns quinze minutos falando enrolado, como se tivesse bebido. Balanças de precisão, fogões, enceradeiras, aspiradores de pó, o que trouxer eu conserto. Mas tenho a minha especialidade: Televisão! Ô equipamento prá dar defeito por falta de porrada...

 Meu micro é que, de uns tempos para cá, principalmente quando estou digitando um texto, deu para travar. Olho para ele e tenho a impressão de que está com a carinha triste, como se achasse que eu não gostasse mais dele. Nesses momentos, pego meu porrete e PÁ! E ele fica contente de novo. Enquanto escrevo, reparo que está lá, me olhando com aquela cara de cachorro sem dono. Estou dando umas porradas nele, nesse exato inst

J. Miguel
11 de  Janeiro de 2005

Arnaldo

Quando soube que o Arnaldo havia quebrado os braços, corri para sua casa. Arnaldo é um amigão. Daqueles de todas as horas, para todos os fins.

Nos conhecemos desde crianças. Ele era aquele garoto grandão do condomínio, que enfiava a porrada em todo mundo. Eu era o menino magricela, aquele que apanha de todo mundo.  A cada três surras que o Arnaldo dava, uma era em mim. Mas aquilo era coisa de crianças. Na adolescência, Arnaldo era o garoto bonitão do bairro, que tinha uma bicicleta incrementada e namorava todas as meninas. Até a Aninha, a garota mais feia das vizinhanças, minha namorada, ficava com o Arnaldo, vez ou outra, quando ele não podia sair de casa e ela ia para lá.

Casei com a Aninha, mas o Arnaldo me ajudou a entender que a Aninha não era muito fiel.

Alguns amigos diziam que eu deveria romper a amizade com o Arnaldo, mas eu vejo por outro ângulo. Sem a ajuda dele, eu continuaria casado e infeliz com a Ana. Hoje ela vive sua vida e eu a minha. Às vezes nos encontramos na casa do Arnaldo, mas nos tratamos como bons amigos.

Então, o Arnaldo sofreu um acidente. Algum infeliz derrubou um vaso de plantas de uma das janelas do meu prédio, sobre o Arnaldo, que passeava tranqüilamente na calçada. Bem a tempo, Arnaldo olhou para cima e colocou os braços para proteger o rosto. Resultado: fraturou os dois braços,  perdeu vários dentes da frente e não está podendo falar. Faz sinais com a cabeça e por mímica, acabamos entendendo o que ele quer.

Quando tomei conhecimento da notícia, fui visitá-lo. Cheguei a dar um suspiro de alívio ao vê-lo tão bem. Vários amigos estavam em seu apartamento, mas foi a mim que ele fez o pedido, que ficasse para ajudá-lo. Então fiquei.

O coitado não conseguia comer, beber, sentar, nem ir ao banheiro sozinho. Principalmente ir ao banheiro. Você consegue se imaginar com os dois braços engessados até quase os ombros, quase urinando nas calças e não conseguindo fazer nada?

Para ser sincero, dar comida na boca, pegar um copo d’água e colocar um canudo dentro, é fácil. Chato é ir com o cara no banheiro e segurar e balançar o Arnaldinho, como ele chama.

Na primeira vez que me pediu que o ajudasse a ir ao banheiro, procurei por todo o apartamento alguma coisa, até que achei aquela luva de forno, para pegar travessas quentes, sei lá o nome daquele diacho. Mas demorei até achar e, quando voltei ao banheiro, ele já havia se urinado todo. Para ajudá-lo a se vestir, também tinha minhas dificuldades. Na hora  dele colocar as cuecas, eu a prendia aberta entre duas cadeiras e ele se enfiava lá. Vou ficar encostando o rosto em perna cabeluda, nada!

Teve uma vez em que eu estava usando a luva para pegar a travessa de feijão que acabara de aquecer no microondas, quando vi que ele queria ir ao banheiro. Na hora em que peguei o “Arnaldinho” com a luva, meu amigo deu um salto. A luva estava muito quente...

Depois a coisa foi piorando. O sujeito no banheiro, sentado no vaso, pedindo que o ajudasse com o papel higiênico, indicando o rolo com o queixo e fazendo: “Ã... ã...”

Quando entendi o que ele queria, fiquei enjoado. Mas, estava ali para ajudar. Desenrolei um bom pedaço de papel e estiquei no chão. Expliquei a ele que deveria esfregar a bunda no papel, que seria a mesma coisa.

Ele fez que não com a cabeça, mas não pôde resistir aos meus argumentos e uma pernada. Caiu sentado, bem em cima do papel. Aí, foi só arrastá-lo pelo chão do banheiro, puxando-o pelas pernas. Bem, para ser sincero, como era a primeira vez e ainda não tinha prática, o chão ficou meio lambuzado também. Quando peguei mais prática, depois de esfregar a bunda dele no papel, sem que ele percebesse, eu o esfregava naqueles borrões que ficam no chão e este ficava limpinho. Só para continuar sendo sincero, devo confessar que o apartamento estava com um fedor miserável, mas acho que ele não se incomodava. Bem, eu me incomodo, por isso usava uma máscara de pintor. Ele não podia usar a máscara sobre a boca, por causa dos pontos e da inchação, por isso acho que ele não se incomodava com o fedor da casa.

Digo da casa, porque às vezes ele estava tão sujo que, ao arrastá-lo sobre o papel higiênico no chão, dava uma esticadinha até a varanda, passando pelo tapete da sala, pelo piso de cimento da área. Tem uma parte da varanda, onde o sol bate pela manhã, que ao meio-dia o piso está bem quente. Ele gostava tanto que eu o arrastasse até lá, que seus olhos ficavam cheios d’água de gratidão.

Eu bem que tentei levá-lo até o elevador, para dar uma voltinha lá no playground, mas ele sempre se enroscava na porta da sala e não havia modo de fazê-lo passar para fora do apartamento.

Claro que depois da sessão de higiene no papel (e fora dele) ambos ficávamos muito cansados. O Arnaldo pesa quase noventa quilos! Puxar pelas pernas um sujeito tão pesado, arrastando a sua bunda cabeluda no chão, não é nada fácil. Cabeluda? Bem, para falar a verdade, ele está com a bunda lisinha agora. Acho que foi o atrito com o piso quente. Dia desses tentei arrastá-lo puxando pelas orelhas, mas é bem mais difícil e eu me cansei logo.

Estava fazendo muito calor e achei melhor depilar o meu amigo, para diminuir sua sensação de calor. Mesmo com os braços engessados, resistiu tanto que tive que amarrá-lo a uma cadeira para poder depilar seu peito. Aliás, bem lembrado! Assim que puder, pretendo patentear a minha invenção: as Folhas de Depilação Arnaldinho. É o seguinte, eu besunto aquelas folhas de papel laminado com superbonder, colo nos cabelos do peito do cliente e depois é só puxar. É quase indolor!

Para que ele não ficasse sem banho, eu também tive que bolar um aparelho. Comprei uma vara de bambu e fiz diversos furos. Enchia a banheira, colocava o bambu lá dentro até encher os furos. Depois era só bater com o bambu no Arnaldo. Colocava sabão na água da banheira, mergulhava o bambu de novo, batia novamente no meu amigo e ele estava ensaboado. Depois, era só enxaguar de novo. Ele compreendia a minha questão de não tocar suas partes com as mãos, porque ele é homem também. Então, durante o banho, Arnaldo chorava de felicidade por ter um amigo tão prestativo.

A alimentação do meu amigo também ficou por minha conta, claro. Eu faço um tutu de feijão maravilhoso. Então, o Arnaldo comia feijão com farinha todos os dias. Ás vezes, quando eu percebia que ele estava com prisão de ventre, dissolvia uma lata de azeite no feijão e ele se soltava todo. Mas eu desconfiei que o cara andava conseguindo comida em algum lugar. O feijão é um alimento que passa compactado pelos intestinos, limpando tudo, empurrando os gases para fora. Mas os flatos de Arnaldo tinham um fedor horroroso de ovo de urubu estragado. Nossa! Que catinga terrível! Só para me certificar de que não andava comendo nada diferente, fazia um quilo de feijão por refeição e dava tudinho para o meu amigo.

Arnaldo é um camarada muito brincalhão. Então, para que pudéssemos nos divertir, na hora da refeição, eu enchia uma saladeira de feijão com farinha, descarregava meia lata de azeite ou óleo de soja, ou óleo de fígado de bacalhau (aí eu misturava uma garrafa), que é bom para os ossos e perguntava:

- Adivinha o que tem para o almoço?

Ele arregalava seus olhos como se estivesse sendo examinado por um proctologista,  balançava vigorosamente a cabeça de um lado para outro e meio que grunhia:

- Nã-nã-nã-nã...

Isso queria dizer:

- Não meu fiel amigo! Eu não faço a menor idéia do que seja a maravilhosa refeição que estou prestes a devorar com toda a minha gratidão...

Sei que ele estava pensando na gratidão, pois associei suas lágrimas à essa palavra. Depois de comer um quilo de feijão em cada refeição, o estômago de Arnaldo ficava dilatado. Acho que o feijão fermentava, formava tantos gases que a barriga dele ficava dura e inchada. Eu esperava cerca de uma hora ou duas, para ver se ele soltava seus gases sozinho. Quando não conseguia, eu amarrava suas pernas e sentava sobre a sua barriga, violentamente. Ele dava uma gemida e soltava todos os gases de uma só vez. Às vezes, quase sempre, saía mais alguma coisa também, mas eu não esperava para conferir, porque a catinga era tão forte que chegava a arder os olhos dele. Normalmente,  eu saía do quarto, fechava bem a porta e esperava meia hora até que o fedor dissipasse.

É verdade que outros amigos vinham visitar o Arnaldo, mas sempre o escondia dentro da banheira e dizia aos visitantes que ele fôra fazer algum exame no hospital, ou estava na fisioterapia. Mês passado a mãe dele veio. Elogiou muito a minha atitude solícita de estar ajudando de maneira tão desinteressada um amigo.

Quando precisava sair, para as compras, por exemplo, ficava com medo que meu amigo se machucasse e amarrava suas pernas no lustre da sala. Colocava um facão preso com chiclete no lustre e avisava a ele que, se balançasse muito, o facão pode cair e ZÁP! Decapitar o Arnaldinho. Meu amigo ficava lá, imóvel, não importava quantas horas eu demorasse. Um dia desses, no mercado, encontrei a noiva dele. Eu lhe disse que estava aproveitando a ida do Arnaldo ao fisioterapeuta para fazer umas compras com o cartão dele. Aliás, nem precisei perguntar a senha, porque é a sua data de aniversário.

Conversa vai, conversa vem, ela disse que precisava me agradecer de uma forma especial, toda a atenção dedicada ao Arnaldo e acabamos em um motel. Passamos a noite juntos. Foi maravilhoso! Ela é demais! Quando lembrei do Arnaldo, já haviam se passado dezoito horas, mas ele estava lá, impávido e faminto!

Para compensá-lo, dei-lhe o dobro de feijão, enquanto contava a maneira delicada que a Priscila encontrou de me agradecer. E ele só:

- Nã-nã-nã...

Que tanto queria dizer:

- Não, meu amigo! Não tenho palavras para agradecer o que está fazendo por mim e pela minha noiva, que está tão solitária...

Mas também queria dizer:

- Não, meu amigo! Não demore a colocar uma colher desse maravilhoso feijão na minha boca!

Os médicos prescreveram apenas dois meses de gesso para Arnaldo. Por minha conta, prorroguei o prazo para seis meses, de início, mas achei que ele precisava de um pouco mais de repouso e continuei tratando dele. Mas no oitavo mês, algo aconteceu.

Arnaldo agora estava gordo, bem barrigudo. Feijão engorda, sabiam? Eu estava voltando das compras, quando vi um carro da polícia defronte ao prédio. Desconfiado, fui até um telefone e liguei para o apartamento do Arnaldo. Uma voz estranha atendeu e desliguei.

Entristecido, pensei:

- É! Ele não precisa mais da minha ajuda.

Fui para a rodoviária e comprei uma passagem para fora da cidade. Algum tempo depois, empregado em uma fazenda, o Arnaldo me encontrou. Não sei como conseguiu.

Me amarrou em uma cama, deixando apenas uma das mãos livres, colocou um laptop ao meu lado e mandou que escrevesse porque o tratei daquele jeito. É o que estou fazendo, enquanto sinto um cheiro de feijão vindo da cozinha...

J. Miguel 
16 de Janeiro de 2005

Motocicleta, Jeremias e Dire Straits


Monto na minha motocicleta envenenada e acelero. Quero deixar para trás todas as trapalhadas e desventuras. Não é intencional, mas sou muito distraído.
 Minha filha adolescente entra em casa exibindo uma tira de pano entre os dedos, bem esticada e dispara:
 - Pai! Veja o que eu comprei...
 - Isso é uma “xuxa”? Um prendedor de cabelos?
 - Não, pai! Isso é um biquíni!
 - Putz! – exclamo – Para que esse daí, se já está usando um biquíni?
 - Isso é uma camiseta e uma bermuda, pai... – ela faz aquela cara de quem não consegue compreender a estupidez humana.
 - Vai já prá loja devolver isso e trocar por um macacão...
 Minha mulher apresenta a lista de compras do mês e descubro que vou ter que aprender a fabricar dinheiro. É por isso que acho que os falsificadores não deveriam serem punidos.
 Ligo a tv e fico trocando os canais, buscando alguma coisa de útil. Para ser sincero, só os comerciais têm alguma coisa de instrutivo, mesmo assim, somente alguns. Em um canal está passando o comercial do Jeremias e suas garotas, que foram embora porque ele desperdiçava desodorante. Fico mudando os canais instintivamente, enquanto tento entender a mensagem do comercial. Por que diabos as garotas abandonaram o cara, afinal? Por que o desodorante que ele usava pingava e desperdiçava?
 Viajo na maionese, imaginando o Jeremias gastando dinheiro com desodorante que pinga. No fim do mês, ele vê o que sobrou do seu pagamento e descobre, na porta da zona, que o restolho do salário só  dá para traçar o traveco que vende camisinhas na entrada. Se benze e vai embora, com o corpo pingando desodorante.
 Sorrio satisfeito. Finalmente entendi o comercial. Meus dedos frenéticos no controle remoto não descansam. O namorado da minha filha comenta que a avó dele, que está gagá, também fica trocando os canais da tv, de modo compulsivo, assim mesmo. Solto um palavrão e saio da sala.
 Vou para o aparelho de som e procuro uma estação de rádio. Égüinha Pocotó para cá e para lá. Uma estação está tocando Lacraia. Isso já está demodée. Finalmente encontro uma estação tocando Sultans Of Swing, com Dire Straits. O som é fantástico. Aumento o volume e minha filha vem correndo e abaixa o som. A música termina e o radialista avisa que teremos mais uma hora de música antiga. Antiga? Irritado, desligo o aparelho e descubro o meu problema: velhice.
 O tempo é inexorável. Envelheci. Num repente, em um piscar de olhos. Minha barriga estufou, meus cabelos embranqueceram e descubro que a minha missão foi apenas envelhecer.
 Solto um grito e acelero a moto.
 - Nem fudendo!
J. Miguel (01fev2005)

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Bloco Carnavalesco Unidos de Vila Jacupita


O Carnaval vem chegando. É a época do ninguém-é-de-ninguém. Ano passado, o pessoal aqui da rua organizou o Bloco Carnavalesco da Vila Jacupita. O bloco iria desfilar no oitavo grupo, mas, na hora agá, alguém perdeu os vale-transportes e não deu para o pessoal comparecer na Avenida.
Este ano organizaram melhor e é voz corrente que isso não irá se repetir. Estamos nos ensaios finais. É uma beleza!
Minha filha entrou em casa esbaforida:
- Pai! Eu vou ser a Madrinha da Bateria...
- Nem que Bateria fosse o nome da filha caçula da Dona Quitéria, a recém-nascida...
Minha esposa intervém:
- É um menino e o nome dele é Reynaldo Giannechinni...
- Mas o moleque é preto! – pondero.
- Pai!
- Tá bom, afro-descendente...
- Afro-brasileiro, jumento!
Minha sogra adora me corrigir.
- Tá, gente! – minha filha se impacienta. – O que importa é que o Seu Agenor me convidou para ser a madrinha da bateria.
Minha esposa reclama:
- Aquele desgraçado! Ele disse que eu seria a madrinha da bateria... até fui lá na casa dele ensaiar...
- Eu também! – exclama minha sogra.
Seu Agenor é o dono do botequim da esquina. Depois que colocou aquelas máquinas de caça-níqueis no botequim, alguém lhe disse que aquilo era contravenção.
- Explorar essas máquinas é contravenção, seu Agenor...
- Igual a jogo do bicho? – indagou.
- Igualzinho...
Pronto! Dali por diante, seu Agenor passou a se achar o tal. Só se apresenta como bicheiro. Começou a usar um terno surrado e óculos escuros. O pior foi a voz. Principiou a falar com a voz rouca, feito Don Corleone. Inclusive passou a exigir que o chamassem de “padrinho”.
Daí para se impor como o Patrono do Bloco Carnavalesco de Vila Jacupita, foi um passo.
Meu cunhado resolveu a disputa:
- Gente! Vocês nunca foram em um casamento com vários padrinhos e madrinhas? Qual o problema da bateria ter três madrinhas?
Minha sogra assente com a cabeça e caminha pelo corredor adentro. Minha mulher e minha filha vão atrás. Fico na sala tentando lembrar quando foi que a minha esposa foi na casa do seu Agenor ensaiar...
Em instantes, voltam as três, usando minúsculos tapa-sexo e uma espécie de coroa feitas com latas de goiabada sem ambas as tampas. Apenas o aro. Mais nada!
- Êêêê! Viva as três gerações de madrinhas da Vila Jacupita!
É a voz do namorado da minha filha. Quando foi que o asqueroso entrou?
Não sei quanto tempo fiquei estático, olhando para as três. Meu queixo deve ter alcançado o umbigo. Minha filha tem apenas quinze anos!
Minha mulher não pode estar falando sério em sair na rua usando aquilo, com os peitos de fora!
Minha sogra... minha sogra... Meu Deus!
As três entraram na sala sambando, cantando o samba do bloco. Minha sogra, com aquelas tetas enormes, balançando e batendo nas costas dela a cada girada, fazendo o som de um tapa. Pá! Pá-Pá!
A barriga da velha é uma monstruosidade. Deus! Não tenho certeza se já me benzi, mas vou benzer de novo. É a visão do inferno. Reparo que ela se depilou. Agora sei de onde vieram os cabelos brancos que entupiram o cano da pia da cozinha. Putz! A velha se depilou na cozinha!
Aponto para o meio das pernas da velha e tento dizer o que estou pensando, quero perguntar se ela se depilou na pia da cozinha, mas apenas saem uns gorgulhos, que nem mesmo eu consigo entender.
- Eu não disse que esse seu marido é um tarado? – ela fala para a filha.
A mulher me dá um tapa na cabeça.
- Seu pervertido! Pára de olhar prá mamãe...
O namorado da minha filha começa a batucar na mesa da sala. O cachorro sai de não sei onde e fica rodando atrás do rabo sobre o tapete. Eu não havia colocado chumbinho na ração do desgraçado?
O coro aumenta:
- “É Carnaval, vou me acabar! Hoje ninguém é de ninguém, você vai ter que perdoar...”
A porta se abre e entra mais uma dúzia de vizinhos:
- “É Carnaval, vou me acabar! Só na quarta-feira você vai me encontrar!”
Consigo esboçar uma reação e arrasto minha filha para fora da sala, justo na hora do refrão:
- “Pego a vaselina e passo na periquita, que eu sou... da Vila Jacupita!”
- Quem diabos compôs essa porcaria? – pergunto.
- Seu Agenor! – responde o coro.
Enquanto arrasto minha filha para dentro, a fim de obrigá-la a colocar uma roupa decente, meu filho caçula, de dez anos, passa usando uma fantasia de baiana, dançando igual à Carmem Miranda.
- Que porra é essa?
- Minha fantasia, ué...
- De baiana?
- E qual o problema? É Carnaval! – responde a mãe dele.
- Mas... mas... ele é um menino! – Passo a mão nos cabelos, custando a acreditar. – Eu o proíbo de desfilar de baiana!
O povaréu na sala emite um “Oh!” em uníssono.
- Mas aí não vamos ter a Ala das Baianas... – diz um pé inchado sentado no meu sofá.
- Como assim? Sem ele as baianas não vão desfilar?
- Pai! Deixa de ser retrógrado! Eu sou a ala das baianas...
- O senhor ainda não viu nada seu Cornélio... – diz o namorado da minha filha – o bloco só vai ter três mulheres desfilando.
- Meu nome é Cordélio, filho duma quenga! – não consigo conter a raiva – CORDÉLIO!
- Calma, benzinho... – minha mulher tenta apaziguar.
O cachaceiro sentado no meu sofá toma mais um gole do meu uísque e repete:
- É benzinho... calma!
O desgraçado está esvaziando a minha garrafa de uísque!
- Ei! Quem deu autorização para beber o meu uísque?
- Ué... o senhor não falou nada quando eu bebi a outra...
Só aí que eu percebo que já esvaziou a outra garrafa de Ballantines. A desgraçada da minha sogra dá uma golada no gargalo mesmo e senta no colo do cachaceiro.
- Você anda muito estressado, Cordélio. Precisa de um retiro no Carnaval...
- Que história é essa de só três mulheres no bloco? – pergunto.
- É que os outros maridos da rua proibiram as esposas e filhas de desfilarem só de tapa-sexo. Como seu Agenor só distribuiu tapa-sexo para as mulheres, só vai a sua filha, sua mulher e a sua mãe...
- Minha sogra!
- Ah! Então são quatro. Eu não sabia que a sua sogra também ia desfilar.
O cachaceiro não sabe onde está mexendo. Tenho ganas de quebrar a garrafa vazia na sua cabeça.
- A minha mãe não vai desfilar! – Exclamo.
Minha mulher me olha com aquela cara de quem esconde um segredo e dispara:
- Errr... benzinho... sua mãe vai desfilar, sim.
- Na ala das baianas? – minha pergunta sai quase em sussurro.
- Não! – responde o coro.
- Vovó é passista. – explica meu filho.
Dou-lhe um tapa na cabeça e o turbante sai pela janela.
- Vai já prá dentro tirar essa roupa!
Ele faz beicinho, como quem vai chorar, mas a mãe lhe faz um sinal e ele resolve obedecer. Ao sair, chama o cachorro.
- Vem Gato Guerreiro! Vamos tirar a fantasia de baiana...
Só aí percebo que o cachorro também está fantasiado de baiana.

J. Miguel (02fev2005)

A Preguiça

O grupo atravessava uma picada em direção ao interior. Precisavam chegar ao outro lado da Montanha dos Vapores. Os uniformes camuflados do Exército, os coturnos emborrachados até o meio da canela, as mochilas pesadas nas costas e ainda, a gaiola.

 A missão era aparentemente simples: capturar a onça parda que rondava o posto de vigilância da fronteira. Para evitar demonstrações de hostilidade aos soldados do outro País, o Comandante da Brigada de Infantaria de Fronteira ordenara que não se utilizassem helicópteros para chegar ao posto. Apenas, quando a onça fosse capturada, um aparelho seria deslocado para o local, custeado pelo Ibama. Os soldados, entretanto, iriam a pé. Não fosse o trambolho que eram obrigados a carregar, até que seria mais uma jornada de rotina.

O rádio emitiu um zumbido curto. Sargento Molina, chefe do pelotão, atendeu prontamente.

- Capivara 4 na escuta!

- Que droga de capivara é essa? O nome da missão é Tigre! – a voz do outro lado era do Capitão Souza.

- Mas no Brasil não tem tigre! Tem Capivara... – ponderou o sargento.

- Ordem direta do General Torres Moura, não devemos trocar.

- Talvez o General Torresmo Ura não saiba que no Brasil não tem tigre... – o Sargento Molina havia pronunciado a pausa no nome do General de maneira quase imperceptível. Quase.

- Ouvi direito, Tigre 4? Como chamou sua Excelência?

- Chamei quem, Capitão? – fez-se de desentendido.

- O General Torres Moura... – a ira do Capitão era visível, ainda que os soldados apenas pudessem ouvir sua voz.

- Chamei ele não, meu Capitão.

- É Tigre 1!

- Precisa gritar não, Tigre 1! Estamos recebendo bem...

O berro ecoou pelo matagal:

- Eu não estou gritando!

Os soldados se entreolharam. O idiota do sargento Molina irritava qualquer um mesmo.

Após certa pausa, o rádio voltou a emitir o chamado:

- Tigre 4, Tigre 4! Tigre 1 chamando...

- Tigre 4 na escuta. – Sargento Molina já estava se irritando. Parou, sentou em um tronco caído e começou a se abanar com o boné.

- Tigre 3 quer saber quanto tempo ainda vão levar.

- Estamos a duas horas da posição de Trigue Tês... Trigue... Trigre... – não saía de modo algum – Deles lá... Vamos chegar daqui a duas horas.

- É muito. Precisam chegar em menos de uma hora. Tomem um atalho...

- Ok! Câmbio e desligo...

Molina enterrou com força o boné na cabeça e resmungou:

- Atalho! Humpf! Como se tivesse atalho...

- Sargento! – chamou o Cabo Anselmo – Podemos usar a preguiça do Vale Fundo e descer pelo outro lado... Adiantaríamos uma hora.

- Então vamos para lá.

A preguiça do Vale Fundo era uma corda amarrada do topo da montanha para o topo da sua vizinha, cuja descida era bem mais suave. O problema consistia no fato de que a travessia era feita de maneira rudimentar, abraçado à corda, atravessando o vale de cerca de quarenta metros de altura.

- E a gaiola? Como a atravessamos?

- Amarramos a corda que trouxemos nela, e o último a atravessar amarra a outra extremidade da corda no meio do cordame. Basta dar um puxão e a gaiola vai para o outro lado.

Enquanto se encaminhavam para cabo da preguiça, os três soldados, mais o Sargento Molina e Cabo Anselmo, discutiam como fariam a travessia. Todos ali já haviam praticado o rapel naquele local. Não seria novidade para nenhum deles.

A um estudioso de geografia, as duas montanhas pareceriam apenas uma, cortada por um rio que secara alguns milhares de anos passados. De qualquer modo, o pelotão estava ali apenas para cumprir uma ordem, levar a gaiola para o outro lado, no menor tempo possível, e não fazer uma dissertação sobre formações rochosas.

Chegados ao topo da montanha, divisaram a corda. Era um vão de cerca de trinta metros, sobre uma ravina de quarenta. Ao reparar que o cabo da preguiça possuía cerca de trinta metros, Sargento Molina teve uma idéia:

- Salvador, qual o comprimento da corda que estamos carregando?

- Vinte metros, Sargento. – respondeu de pronto o soldado que a carregava.

- Tive uma idéia... Se der certo, ganharemos no mínimo meia hora...

Ninguém perguntou qual era a idéia do Sargento. Todos sabiam que ele a diria de qualquer maneira.

- Amarramos uma ponta da corda na gaiola. A outra ponta um soldado vai e amarra no meio do cabo da preguiça. Como a gaiola é grande o suficiente para cabermos nós todos nela, entramos e usamos a gaiola como um bondinho. Chegaremos lá todos juntos, rapidamente.

- Nós todos dentro dela? – o Soldado Julião não conseguia compreender bem o que o Sargento dizia – Nós cinco vamos ficar espremidos...

- Cinco não, sua besta! – Cabo Anselmo não tinha paciência com os menos afortunados de cérebro. – Um vai atravessar o rapel para amarrar a corda no meio do caminho...

- Salvador! Desenrole a corda e amarre bem firme no topo da jaula.

Enquanto o sargento e o soldado amarravam a gaiola, o Cabo Anselmo decidiu escolher o que iria atravessar o cabo do modo costumeiro e amarrar a outra ponta da corda. Não compreendeu bem o motivo pelo qual os dois soldados restantes, Julião e Tobias foram voluntários. Achou que era excesso de zelo.

Tobias foi o escolhido, para desespero de Julião.

- Cabo!- chamou Julião – Eu poderia ir com ele para ajudar a amarrar a corda. Ou para verificar se ficou bem amarrada...

- Iria nos atrasar. Entre na Gaiola.

O soldado Tobias já ia adiantado pendurado na corda. A certa altura, onde considerava o meio, parou. Preso pelas pernas, dependurado de cabeça para baixo, a uma altura considerável do solo, Tobias, usando as mãos, amarrou a corda firmemente na outra. Parecia um artista de circo!

Por garantia, o Sargento Molina esperou o soldado descer do outro lado para fazer com que os outros puxassem com toda a força a corda da gaiola. Não seria bom se a corda arrebentasse no meio do caminho.
De um único impulso, ordenou que os subordinados entrassem na gaiola.

- Preparar para embarcar no veículo! Embarcar!

Cabo Anselmo foi o primeiro, o sargento entrou a seu lado, pois o último a entrar é que daria o impulso para que a gaiola saltasse. Esse seria o soldado Julião, que nesse momento ainda tentou uma última vez:

- Sargento! Eu poderia atravessar o rapel depois... Daria um impulso melhor se estivesse do lado de fora...

- Cale-se! Entre e feche a gaiola.

Os quatro homens, dentro de uma jaula de aproximadamente um metro cúbico, ficavam realmente espremidos. Sargento Molina e Cabo Anselmo voltados para a outra montanha, onde esperavam chegar em breve; o soldado Julião estava na retaguarda, ao lado de Salvador, olhando o caminho por onde vieram. Sem pestanejar, fechou a gaiola e deu um impulso com o pé.

Não seria de estranhar descobrir, tempos depois, que na Escola de Sargentos o Aluno Molina jamais ouvira falar na Lei da Gravidade. Nem muito menos na Lei de Morphy.

Do outro lado da montanha, o Soldado Tobias viu a jaula escorregar pela lateral do barranco. Ambas as cordas resistiram ao peso da jaula. Mas cederam. Sargento Molina agarrado às barras de ferro da jaula arregalou um par de olhos que por muito tempo depois continuariam assim. Trincou os dentes e gritou. A seu lado, o Cabo Anselmo, também aferrado às barras, gemia alto, repetidamente:

- Má idéia, má idéia, má idéia...

Com o peso da jaula, o cabo da preguiça esticou, e fez uma barriga de cerca de cinco metros. A corda que segurava a gaiola também esticou e o conjunto desceu cerca de seis a sete metros abaixo de onde planejavam chegar.

Os anos se passariam e Tobias jamais conseguiria descrever com riqueza de detalhes suficiente a cena que presenciara: quatro homens, espremidos dentro de uma jaula do tamanho de uma caixa d’água de mil litros, atravessando um vale de cerca de quarenta metros de altura. Os dois mais graduados, e por isso mesmo, viajando na frente do veículo, agarrados às barras, olhos arregalados, trânsidos de pavor; os outros dois, menos afortunados no soldo, ganhando ainda menos que os dois loucos da dianteira, que conceberam tal idéia mirabolante, ainda mais apavorados, pois não faziam a menor idéia do rumo que as coisas tomaram, apenas com uma certeza na cabeça, desde antes do embarque: aquilo não daria certo. Um único, sonoro e duradouro grito, até se chocarem violentamente contra o paredão.

De certo modo, deram sorte. Depois de se chocar contra a parede de granito duas vezes, a gaiola ficou pendurada sobre o vale por apenas mais um dia, que foi o tempo necessário para que as tropas de salvamento chegassem e os retirassem de lá. As fraturas pelo corpo o tempo se encarregou de curar. 

Pedido de Amigo

Vinte anos. Ah, os vinte anos. De casados, claro! Casamos novos. Ela com dezenove e eu com vinte anos de idade. Lua-de-mel, viagens, mobílias na casa alugada, prestações da casa própria e o primeiro bebê. Anos oitenta e a moda era ter uma filmadora do Paraguai. Sempre tinha um vizinho ou amigo contrabandista disposto a trazer aquela muambazinha por um preço módico.

Ela tinha vergonha, mas eu desejava eternizar aquele momento. Irrompi na sala de parto com a câmera no ombro e chorei enquanto filmava o parto do meu primeiro filho. Todo mundo que chegava lá em casa era obrigado a assistir o filme. Perdi a conta das cópias que fiz do parto e distribuí entre amigos, parentes e parentes dos amigos. Meu filho e minha esposa eram o meu orgulho.

Três anos depois, novo parto, nova filmagem, nova crise de choro. Como ela categoricamente disse que não queria que eu filmasse, invadi a sala de parto, mais uma vez, com a câmera ao ombro.

As pessoas que me conhecem sabem que havia apenas amor de pai e marido naquele ato. O fato de fazer diversas cópias da fita era apenas uma demonstração de meu orgulho. Nada que se comparasse ao fato de ela, essa semana, invadir a sala do meu proctologista, câmera ao ombro, filmando o meu exame de próstata. Eu lá, com as pernas naquelas malditas braçadeiras, o cara com um dedo (ele jura que era só um!) quase na minha garganta e a mulher gritando:

- Ah! Doutoor! Que maravilha! Vou fazer duzentas cópias dessa fita! Semana que vem estou enviando uma para o senhor!

Meus olhos saindo da órbita a fuzilaram, mas a dor era tanta que não conseguia falar. O miserável do médico girou o dedo e eu vi o teto a dois centímetros do meu nariz. A mulher continuou a gritar, como um diretor de cinema:

- Isso, doutor! Agora gire de novo, mais devagar que vou dar um close...

Alcancei um sapato na mesa e joguei na maldita.

Agora, estou escrevendo este e-mail, pedindo aos amigos que receberam uma cópia do filme, que o enviem de volta para mim. Eu pago o reembolso.

J.Miguel
01 de Novembro de 2004

MINHA AMIGA ANA

Amiga:

Conforme minha promessa, estou enviando um e-mail contando as novidades da minha primeira semana depois de ser transferida pela firma para o Rio de Janeiro. Terminei hoje de arrumar as coisas no meu novo apartamento. Ficou uma gracinha, mas estou exausta. São dez da noite e já estou pregada.


Segunda-Feira:

Cheguei na firma e já adorei. Entrei no elevador quase no mesmo instante que o homem mais lindo desse planeta. Ele é loiro, tem olhos verdes e o corpo musculoso parece querer arrebentar o terno. Lindooooo! Estou apaixonada. Olhei disfarçadamente a hora no meu relógio de pulso e fiz uma promessa de estar parada defronte ao elevador todos os dias a essa mesma hora. Ele desceu no andar da engenharia. Conheci o pessoal do setor, todos foram atenciosos comigo. Até o meu chefe foi super delicado. Estou maravilhada com essa cidade. Cheguei em casa e comi comida enlatada. Amanhã vou a um mercado comprar alguma coisa.


Terça-Feira:

Amiga! Precisava contar. Sabe aquele homem de quem falei? Ele olhou para mim e sorriu quando entramos no elevador. Fiquei sem ação e baixei a cabeça. Como sou burra! Passei o dia no trabalho pensando que preciso fazer um regime. Me olhei no espelho hoje de manhã e percebi que estou com uma barriguinha indiscreta. Fui no mercado e só comprei coisinhas leves: biscoitos, legumes e chás. Resolvido! Estou de dieta.


Quarta-Feira:

Acordei com dor-de-cabeça. Acho que foi a folha de alface ou o biscoito do jantar. Preciso manter-me firme na dieta. Quero emagrecer dois quilos até o fim-de-semana. Ah! O nome dele é Marcelo. Ouvi ele e um amigo  conversando no elevador. E ainda tem mais: desmanchou o noivado há dois meses e está sozinho. Consegui sorrir para ele, quando entrou no elevador e me cumprimentou. Estou progredindo, né? Como faço para me insinuar sem parecer vulgar? Comprei um vestido dois números menor que o meu. Será a minha meta.

Quinta-Feira:

O Marcelo me cumprimentou ao entrar no elevador. Seu sorriso iluminou tudo! Ele me perguntou se eu era a arquiteta que viera transferida de Brasília e eu só fiz: “U-hum”... Ele me perguntou se eu estava gostando do Rio e eu disse: “U-hum”. Aí ele perguntou se eu já havia estado antes aqui e eu disse: “U-hum”. Então ele perguntou se eu só sabia falar “U-hum” e eu respondi: “Ã-hã”. Será que fui muito evasiva? Será que eu deveria ter falado um pouco mais? Ai, amiga! Estou tão apaixonada! Estou resolvida! Amanhã, vou perguntar se ele não gostaria de me mostrar o Rio de Janeiro no final de semana. Quanto ao resto, bem... ando com muita enxaqueca. Acho que vou quebrar meu regime hoje. Estou fazendo uma sopa de legumes. Espero que não me engorde demais.


Sexta-Feira:

Amiga! Estou arruinada! Ontem à noite não resisti e me empanturrei. Coloquei bastante batata-doce na sopa, além de couve, repolho e beterraba. Menina, hoje saí de casa que parecia um caminhão de lixo. Como eu peidava! (nossa! Você não imagina a minha vergonha de contar isto, mas se eu não desabafar, vou me jogar pela janela!).

No metrô, durante o trajeto para o trabalho, bastava um solavanco para eu soltar um futum que nem eu mesma suportava. Teve um momento em que alguém dentro do trem gritou: “Aí! Peidar até pode, mas jogar merda em pó dentro do vagão é muita sacanagem!”

Uma senhora gorda foi responsabilizada. Todo mundo olhava para ela, tadinha. Ela ficou vermelha, ficou amarela, e eu aproveitava cada mudança de cor para soltar outro. O meu maior medo era prender e sair um barulhento. Eu estava morta de vergonha. Desci na estação e parei atrás de uma moça com um bebê no colo, enquanto aguardava minha vez de sair pela roleta. Aproveitei e soltei mais um. O senhor que estava na frente da mulher com o bebê, virou-se para ela e disse: “Dona! É melhor a senhora jogar esse bebê fora porque ele está estragado!”.

Na entrada do prédio onde trabalho tem uma senhora que vende bolinhos, café, queijo, essas coisas de camelô. Pois eu ia passando e um freguês começou a cheirar um pastel, justo na hora em que o futum se espalhou. O sujeito jogou o pastel no lixo e reclamou: “Pó, dona Maria! Esse pastel tá bichado!”
Entrei no prédio resolvida a subir os dezesseis andares pela escada. Meu azar foi que o Marcelo ficou segurando a porta do elevador, esperando que eu entrasse. Como não me decidia, ele me puxou pelo braço e apertou o botão do meu andar. Já no terceiro andar ficamos sozinhos. Cheguei a me sentir aliviada, pois assim a viagem terminaria mais rápido. Pensei rápido demais. O elevador deu um solavanco e as luzes se apagaram. Quase instantaneamente, a iluminação de emergência acendeu. Marcelo sorriu (ai, aquele sorriso...) e disse que era a bruxa da sexta-feira. Era assim mesmo, logo a luz voltaria, não precisava me preocupar. Mal sabia ele que eu estava mesmo preocupada.

Amiga, juro que tentei prender. Mas antes que saísse com estrondo, deixei escapar. Abaixei e fiquei respirando rápido, tentando aspirar o máximo possível, como se estivesse me sentindo mal, com falta de ar. Já se imaginou numa situação dessas? Peidar e ficar tentando aspirar o peido para que o homem mais lindo do mundo não perceba que você peidou?

Ele ficou muito preocupado comigo e, se percebeu o mau cheiro, não o demonstrou. Quando achei que a catinga havia passado, voltei a respirar normal. Disse para ele que eu era claustrófoba. Mal ele me ajudou a levantar, eu não consegui prender o segundo, que saiu ainda pior que o anterior. O coitado dessa vez ficou meio azulado, mas ainda não disse nada. Abaixei novamente e fiquei respirando rápido de novo, como uma mulher em estado de parto. Dessa vez Marcelo ficou afastado, no canto mais distante de mim no elevador. Na ânsia de disfarçar, fiquei olhando para a sola dos meus sapatos, como se estivesse buscando a origem daquele fedor horroroso. Ele ficou lá, no canto, impávido. Nem bem o cheiro se esvaiu e veio outro. Ele se desesperou e começou a apertar a campainha de emergência. Coitado! Ele esmurrou a porta, gritou, esperneou, e eu lá, na respiração cachorrinho. Quando a catinga dissipou, ele se acalmou. As lágrimas começaram a escorrer pelos meus olhos. Ele me viu chorando, enxugou meus olhos e disse: “Meus olhos também estão ardendo...” Eu juro que pensei que ele fosse dizer algo bonito. Aquilo me magoou profundamente. Pensei: “Ah, é, FDP? Então acabou a respiração cachorrinho...”

Depois disso, no primeiro ele cobriu o rosto com o paletó. No segundo, enrolou a cabeça. No terceiro, prendeu a respiração, no quarto, ele ficou roxo. No quinto, me sacudiu pelos braços e berrou: “Mulher! Pára de se cagar!”. Depois disso, ele só chorava. Chorou como um bebê até sermos resgatados, quatro horas depois. Entrei no escritório e pedi minha transferência para outro lugar, de preferência outro País.
Apague este e-mail depois de ler, tá?

Sua amiga, Ana.

J. Miguel
29 de Novembro de 2004