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sábado, 25 de agosto de 2012

Antônios

Trecho da Obra:
Antônios
Os muitos Antônios que foi Antônio Conselheiro.

[...]Anos depois, entrou na Bahia, na cidade de Itapicuru. Atrás de si, deixara um rastro de vilarejos reformados e um sem-número de cognomes: Bom Pastor, Antônio dos Mares, Santo Antônio dos Mares, Santo Antônio Aparecido, Bom Jesus Conselheiro, Bom Jesus do Sertão, Santo Antônio do Sertão e muitos outros. O nome Bom Jesus foi adquirido em função da exclamação que sempre usava: O Bom Jesus lhe abençoe, Bom Jesus lhe cuide, Bom Jesus lhe acompanhe, etc.


O título de Santo o incomodava por demais, mas o tratamento já era quase um apelido. De todos, o que menos o incomodava era o título de Conselheiro. Preferia ser chamado assim a Santo ou Bom Jesus.
Outra vez, faz-se necessário chamar a atenção para um singelo detalhe na vida de Antônio Conselheiro e o modo como foi abandonado pelos historiadores, que se deixaram levar pelas informações deslocadas dos fatos.

Já nessa época, após o contato com o Padre Antônio Ibiapina, Antônio Conselheiro passa a celebrar casamentos. Como fora um devotado cristão por toda a vida, além de ter trabalhado como Advogado dos Pobres, essas experiências lhe dão a capacidade de realizar casamentos.

Nos vilarejos por onde passa, encontra casais vivendo maritalmente, por vezes até com filhos e netos, sem estarem ligados aos olhos de Deus e dos homens.

Os vilarejos possuíam capelas para o padre itinerante, mas, em função da seca prolongada, era natural que o clérigo passasse até uma década sem aparecer para celebrar uma missa sequer. Ao chegar nesses lugares, Antônio Conselheiro realizava os casamentos.

Quando os moradores de alguma localidade ficavam sabendo da iminente chegada do andarilho, era comum as moças procurarem seus namorados e os instassem a se preparar para ter seu casamento celebrado pelo famoso santo. E, se havia algo que iluminava o rosto do Conselheiro era celebrar a união de dois amantes.
Nessas épocas, as cidades recebiam a Antônio com festas. Os casais estavam já formados e a celebração preparada. Antônio realizava vários casamentos de uma só vez e a cidade passava dias em comemoração pelas bodas de tantos filhos.

Santo Antônio do Bom Conselho, Santo Antônio Bom Pastor,  Santo Antônio dos Mares... e a Igreja Católica nos diz que o Santo Antônio Casamenteiro do folclore nordestino é o Santo Antônio de Pádua, um santo de origem italiana, que só é conhecido como casamenteiro no Brasil, pois o santo casamenteiro do catolicismo no mundo é  São Valentim.

Mesmo depois, quando já estava estabelecido em Canudos, Antônio Conselheiro ainda celebraria diversos casamentos. Muitos dos quais ele mesmo se encarregara de apresentar o noivo à noiva, como fizera tantas vezes nas diversas cidades por onde passara e dera bons conselhos a jovens apaixonados.

Os rapazes tímidos o procuravam para pedir que lhes desse um conselho em como conquistar determinada moça, ou que lhes servisse de padrinho e fosse conversar com o futuro sogro a fim de que pedisse a mão da moça.

Por todo o sertão, as moças em idade de casamento faziam promessas para a próxima visita do santo à cidade.

Para evitar alimentar o misticismo sobre a figura de Antônio Conselheiro, justamente no momento em que a Igreja Católica brasileira se entendia com os representantes da nova República, esta se encarregou de criar a confusão com os Antônios: o de Pádua e o Conselheiro. Bastaram alguns anos para que o Santo Antônio Casamenteiro passasse a ser o Santo Antônio de Pádua, considerado pela Igreja como o único Santo Antônio.

Entrando em Itapicuru, carregava novamente consigo uma verdadeira multidão de seguidores. O povo o amava e respeitava. Todavia, junto com a admiração do humilde tabaréu, angariara o ódio das autoridades e do clero. Aziagamente, o Juiz de Itapicuru era o Dr. Arlindo Leoni, que fora transferido de Santa Quitéria para lá, haviam dois anos.

Ao saber da proximidade do peregrino, chamou o delegado de polícia e instou-o a prendê-lo devido ao assassinato da própria esposa e da mãe, em Quixeramobim.

Esta é outra das lendas envolvendo o Conselheiro ainda em vida. Se o autor foi realmente o Juiz Leoni, ou se este apenas o ouviu de alguém, não se sabe, mas o fato é que espalhou-se em Itapicuru, depois pela Bahia e finalmente por todo o Brasil, a história que sua mãe descobrira que a esposa o andava traindo e resolvera ajudá-lo a dar um flagrante na adúltera. Como não sabia como fazê-lo, a mulher teria instado o filho a se ocultar no matagal perto de casa, armado com um rifle e aguardar. Em seguida, a velha teria colocado roupas de homem e pulado a janela do quarto da nora. Entretanto, completamente fora de si, Antônio Maciel ao ver um homem pulando a janela de seus aposentos, teria disparado a arma dali mesmo, matando a mãe. Ao verificar o erro cometido, teria assassinado também a esposa.

Ocorre que, na verdade, a mãe de Antônio Maciel morrera quando este contava cinco anos de idade. Depois, seu pai casara novamente, com uma mulher chamada Francisca Maria da Conceição, que morreu em 1856, um ano antes de Antônio conhecer Brasilina e casar.

Mas o Delegado Francisco Pereira Assunção apenas conhecia o boato e juntou uma milícia para prendê-lo. Encontrou-o entre uma centena de seguidores. Para evitar um massacre, Antônio Conselheiro, serenamente se ofereceu para ir junto com o Delegado para Itapicuru, desfazer o mal-entendido.

Antônio contava então quarenta e seis anos de idade, usava o cabelo e barba compridos, um batinão azul, cingido à cintura por um cordão e alpercatas de couro. Sua voz era mansa e seu comportamento tranqüilo.
Era a tarde do dia dezessete de junho de 1876. Dirigindo-se aos seguidores, pediu que se mantivessem tranqüilos, pois ficaria afastado deles durante alguns dias.

Uma mulher, chorosa, insistiu:

- Mas quando o senhor volta, Conselheiro? Que dia?

- Anotem aí – ordenou – estarei em liberdade no dia primeiro de agosto desse ano.

Caminhou para fora do acampamento conversando serenamente com o delegado, que o tratava cortesmente. Algumas pessoas seguiam o grupo à distância. Ao alcançarem a estrada que levava a Itapicuru, o delegado Assunção fez alto no grupo. Uniu as mãos do prisioneiro às costas e algemou-o. A turba, que os seguia ao longe acorreu, indignada e furiosa, protestando contra mais aquela humilhação. A um sinal do delegado, os policiais formaram fileira, apontando suas carabinas em direção ao populacho, que amedrontado, estacou.

Sorridente, Francisco Pereira Assunção adentrou Itapicuru arrastando atrás de si o famigerado Antônio Vicente Mendes Maciel, o Conselheiro.

Encarcerado, Antônio aguardava julgamento, por um crime sem corpo, sem testemunhas, nem armas. Mesmo para a época, a acusação era absurda, a prisão era indecente.
A notícia se espalhou pelo norte e nordeste brasileiros. Romarias de diversos cantos do País dirigiram-se para a Bahia.
O Juiz Arlindo Leoni foi pessoalmente à cadeia para interrogar diretamente o prisioneiro. Ao vê-lo entrar na carceragem, Antônio finalmente compreendeu o real motivo da sua prisão.

O magistrado observou o preso dos pés à cabeça, torcendo o nariz. Franziu o cenho para o carcereiro e indagou:

- Como o senhor quer que eu entre nessa cela com esse homem imundo do jeito que está? Dê-lhe um banho, elimine seus piolhos e depois me avise. Espero não encontrar nenhuma surpresa na próxima vez que retornar aqui.

Dito isto, Arlindo Leoni deu meia-volta e dirigiu-se para a saída da cadeia.

Acostumado a cumprir ordens, o cabo Rosevaldo não discutiu. Sabia que o Conselheiro estava tão limpo ou até mais que o próprio Juiz, mas sequer pestanejou. Mandou que trouxessem água, navalha e sabão. Chamou a guarda e ordenou que o barbeassem, aparassem seus cabelos e o lavassem. Meia hora depois, o Conselheiro tivera cabelos e barbas rapados, em meio a socos e pontapés. Durante toda a sessão de tortura, não emitiu um único gemido.

Algum tempo depois, Dr. Leoni adentrava a cela, defrontando-se com o homem que apresentava diversos hematomas.

- Eis que nos encontramos novamente, não senhor Antônio?

Calado, Antônio preferiu não responder.

- Bem, vejamos... – iniciou, folheando uma pasta repleta de anotações – vejo aqui que depois de assassinar a sua mãe e depois a esposa, o senhor andou bem ocupado...

Antônio sabia que o Juiz imaginava que Joana Imaginária fosse sua esposa. Pretendia acusá-lo de um crime que ele próprio fora o mandante. Provavelmente seu interesse era o de pedir a sua execução. Se iniciasse qualquer defesa, daria mais condições ao Juiz para que conseguisse sua condenação. Melhor seria evitar discutir o assunto, para que Leoni formalizasse a acusação. Somente aí faria sua defesa.

Antônio olhou duramente para o Juiz:

- Tanto você quanto eu bem sabemos o que pretende. Que tal deixar de rodeios e ir direto ao ponto? Vai me acusar logo ou não?

Lívido de ódio, o juiz ergueu-se do banco onde estivera sentado e desferiu sonora bofetada no rosto do prisioneiro. O tapa foi tão forte que os ossos da mão do gordo magistrado doeram profundamente. O guarda que se encontrava junto à porta da cela, ao ver o juiz agredir o preso, entrou na cela e passou a bater também. Em instantes, o homem desmaiou.

Antônio Conselheiro era um homem franzino, magro, de baixa estatura. A alimentação diminuta, pobre em conteúdo calórico, quase toda à base de leguminosas, completava a fragilidade do corpo. Por sorte, pois a intenção do avantajado guarda era prosseguir batendo, até esfolar totalmente o bandido. O Juiz Arlindo Leoni, satisfeito com a entrevista, retornou para o tribunal. Entregou ao escrivão um rascunho onde constava que o preso, interrogado, recusara-se a responder as perguntas da autoridade.

A notícia da prisão de Antônio Conselheiro espalhou-se como rastilho de pólvora pelo sertão. Seus seguidores, espalhados pelos diversos vilarejos do nordeste, imediatamente formaram grupos e se encaminharam para Itapicuru. O temor generalizado era que morresse na cadeia, vítima de algum mal fulminante, como era comum aos presos políticos de então.

Em Itapicuru, as pessoas foram aparecendo. A cada dia, um número maior de sertanejos circulava dolentemente pela cidade, causando apreensão nas autoridades.

- O homem foi preso há apenas três dias e já circulam mais de quinhentos estranhos pelas cercanias da delegacia. Alguns cometeram o disparate de acampar defronte à cadeia! – exclamou o Delegado.

Reunidos no Tribunal de Justiça, o Delegado, o Juiz, o Prefeito, o Promotor e o Defensor Público, discutiam as ações a tomar. Eram todos unânimes no desejo de atender a vontade do influente magistrado: condenar à morte o famigerado anarquista. O Promotor tomou a palavra:

- O Delegado deveria encarcerar cada um destes vagabundos. Os outros imediatamente fugiriam amedrontados.

Francisco Assunção sorriu ironicamente para o Promotor:

- São cerca de uma centena! Não tem cadeia suficiente para todos...

- Prenda os líderes! – insistiu o outro.

- Senhores! – chamou o Defensor – mais preocupante que os sertanejos que já estão na cidade, é a romaria de seguidores que se encaminha para cá!

- Verdade, Excelência – ajuntou o Delegado Assunção – sem contar os cerca de cem que chegam por dia, há relatos de Salvador que indicam cerca de dez mil pessoas viajando para cá, a maioria a pé. Temo que qualquer atitude impensada nos ponha à mercê desses fanáticos.

- Peça milícias à Capital, solicite um batalhão do Exército ao Imperador... – aconselhou o Juiz.

- Perdoe, Meritíssimo – desculpou-se novamente Assunção – mas se fosse para uma cidade mais importante, o governo até enviaria tropas, mas para Itapicuru? Duvido muito que enviem tropas ou reforços policiais.

- Por que não o mandamos para que seja julgado na Capital? – sugeriu o Promotor – Além de nos livrarmos do problema, ainda faremos esses vagabundos darem outra boa caminhada. E na Capital, a Guarda Imperial e o exército podem muito bem prender todos esses arruaceiros.

A idéia foi aplaudida por unanimidade. Rapidamente, foram todos para seus escritórios aviar a transferência do prisioneiro, cada qual com a sua responsabilidade. O Delegado Assunção redigiu o seguinte documento ao Chefe de Polícia, João Bernardo de Magalhães:

“Delegacia da villa de Itapicurú, 28 de Junho de 1876

Ilm. Sr. - Ao sr. alferes Diogo Antônio Bahia, comandante da força que v.s. remeteu a esta villa por minha requisição, não só para manter a ordem e o respeito devidos à autoridade, como para conduzir o preso Antônio Vicente Mendes Maciel, entreguei não só o mesmo preso, como ainda outro, de nome Paulo José da Rosa, que se achavam aqui detidos por ordem de v.s. para serem remetidos à secretaria, segundo me ordenou em officio de 15 de abril último. Em presença da força, desistiram os fanáticos do plano entre elles combinado da desmoralização à autoridade, pois só essa providência os faria conter desse propósito; sendo certo que agora propalam – que o farão na volta do seu Sancto Antônio, como chamam o primeiro dos presos; o que contam por certo.

A’ vista desse máu plano que, em face das circunstâncias, executarão, peço a v.s. para dar providências, a fim de que não volte o dito fanatizador do povo ignorante; e creio que v.s. assim o fará, porque não deixará de saber da notícia, que há mezes apareceu, de ser elle criminoso de morte na provincia do Ceará.

Também aproveito a occasião para remetter a v.s. pelo mesmo alferes os individuos de nomes José Manoel e Estevam; o primeiro recrutei pra o exercito, visto não apresentar isenção alguma, não ter pae nem mãe, e não ter emprego nenhum conhecido, senão o de larapio; pois ha poucos dias furtou a uma pobre viúva 60$, que ella reservava de suas economias para suas precisões, e os deu quasi todo a mulheres perdidas. E o segundo, por denuncia que tive de ser captivo de uma viuva, residente no Porto da Folha, na província de Sergipe, e andar aqui constantemente embriagado, e insultando as autoridade, como ha pouco acaba de praticar com o dr. juiz de direito desta comarca.

Esses indivíduos são fanatizados e partidários do preso Antônio Vicente Mendes Maciel.

Deus guarde a v.s. Illm. Sr. de. João Bernardes de Magalhães , m.d. chefe de polícia desta provincia. – o delegado em exercicio, Francisco Pereira da Assumpção"
( Apud Aristides Milton, 1902, p.10)

Em poucos dias, durante a madrugada, saindo pelos fundos da cadeia, despistando os seguidores do Conselheiro, os presos foram transferidos para Salvador. Os sertanejos, cada vez mais numerosos em Itapicuru, ainda levariam alguns dias até saber a localização do peregrino. Como chegaram, desapareceram da pequena cidade no interior bahiano.

Apresentado ao tribunal de Salvador, finalmente pode apresentar sua defesa. Solicitou ao Juiz permissão para defender-se sozinho, sem auxílio do Defensor. Autorizado, solicitou a imediata libertação, pois a sua mãe, conforme poderia ser confirmado através do atestado de óbito da cidade de Quixeramobim, morrera quando contava cinco anos e sua esposa, ainda vivia, no Ceará.

Surpreso, o magistrado ordenou que o encarcerassem novamente, até que se apurassem os fatos.

Por todo o país a notícia da prisão de Antônio Conselheiro provocou comoção. Até mesmo na Capital do Império, Rio de Janeiro, a notícia foi divulgada nos jornais. Tornava-se cada vez mais nítido o embuste. O Juiz Arlindo Leoni, que emitira o mandato de busca e captura encontrar-se-ia em maus lençóis, caso ficasse comprovada a inocência do réu.

Mesmo para a época, não era usual prender-se um homem baseando-se em boatos sequer investigados. O erro aparentava ser tão grosseiro que colocava a própria magistratura na berlinda.

Colocado a par do evidente erro pelo Juiz, o Chefe de Polícia da Bahia enviou ofício ao seu colega do Ceará, solicitando informações a respeito do caso.

Alfredo apeou da charrete defronte ao Tribunal e encaminhou-se à sua sala. Estava perto da aposentadoria. Aguardava apenas a chegada do substituto para abandonar o sertão e voltar ao Rio de Janeiro.

Alfredo Alves Matheus, Juiz Municipal de Quixeramobim, no Ceará era um homem reto e honesto. Excelente pai e marido, procurava julgar seus casos com a mesma dose de amor e severidade com que criara os filhos.

Enquanto subia os degraus da entrada do tribunal, Alfredo repesava a decisão que teria que tomar. Conhecera Antônio Maciel no próprio tribunal, onde ainda rapazote, trabalhara como escrivão. Como todos na cidade, ficara profundamente entristecido quando soubera que o jovem e promissor advogado abandonara a carreira para mudar-se de cidade e afastar a esposa do amante que arranjara. Depois de anos passados, surpreendeu-se ao ler nos jornais notícias de que aquele jovem franzino e calado teria se tornado um beato, com até mesmo a fama de santo milagreiro do sertão.

Entrou no escritório e chamou o escrivão, indagando se já havia encontrado o registro do óbito da mãe de Antônio, bem como o paradeiro de Brasilina. Em seguida à leitura do depoimento da esposa e o atestado de óbito, escreveu ao colega Juiz de Salvador, informando da inocência do réu.

Duas semanas depois, recebeu uma carta pessoal do Juiz Arlindo Leoni, solicitando que se investigasse mais a vida do beato, de modo a conseguir elementos que o pudessem manter na prisão, ou mesmo ser executado, visto que a sua presença no sertão incomodava as autoridades.

Enojado com a carta do colega, resolveu agir. Em carta ao Tribunal de Justiça da Bahia, solicitou que o preso, em vista de ser acusado de um crime cometido em Quixeramobim, deveria ser imediatamente transferido para aquela província, onde seria julgado e condenado, nas formas da lei. Alfredo tomou essa iniciativa por temer pela vida do Conselheiro, se insistisse em sua liberdade.

Imaginando que Antônio Conselheiro seria finalmente condenado, João Bernardo de Magalhães, o Chefe de Polícia da Bahia escreveu ao Chefe de Polícia do Ceará:

"Secretaria da Policia da Provincia da Bahia, em 5 de julho de 1876. 2a Secção, no 2.182. – Ao dr. Chefe de Polícia do Ceará.

Faço apresentar a V. S. o individuo que se diz chamar Antonio Vicente Mendes Maciel conhecido por Antonio Conselheiro, que suspeito ser algum dos criminosos dessa provincia, que andam foragidos.

Esse individuo appareceu ultimamente no logar denominado Missão da Saúde do termo de Itapicurú, e, ahi, entre gente ignorante, disse-se enviado de Christo, e começou a prégar, levando a superstição de tal gente ao ponto de um fanatismo perigoso.

Em suas prédicas plantava o desrespeito ao vigario daquella freguesia, e cercado de uma multidão de adeptos começara a desasocegar tranquillidade da população.

Em virtude da reclamação que recebi do exm. sr. vigário capitular, contra o abusivo procedimento desse individuo, que ia, além de tudo, embolsando os dinheiros com que, credulos, iam lhe enchendo as algibeiras, os seus fieis, mandei-o buscar à Capital, onde, obstinadamente, não quiz responder ao interrogatorio que lhe foi feito, como verá v.s. do auto junto.

Era uma medida de ordem pública, de que não devia eu prescindir. Entretanto, si por ventura não fôr elle ahi criminoso, peço em todo caso, a v.s. que não perca de sobre elle as suas vistas, para que não volte a esta provincia, ao logar referido, para onde a sua volta trará certamente resultados desagradaveis pela exaltação em que ficaram os espiritos dos phanaticos com a prisão do seu idolo. – J.B. de Magalhães."
(Apud Aristides Milton, 1902, p.12)

É importante observar que já o Chefe de Polícia não falava mais em crime de assassinato, Antônio agora seria acusado de novo crime: incitar a quebra da ordem pública. Aziagamente, a acusação já havia sido formalizada. Oficialmente, estava preso por suspeita de assassinato.

Na viagem de navio para o Ceará, Antônio foi duramente torturado por seus condutores. Desceu do navio completamente desacordado, carregado em uma padiola improvisada pelos outros presos.

Ao saber de sua chegada, Dr. Alfredo Matheus foi visitá-lo na cadeia. Irritou-se profundamente com seu aspecto e determinou que os guardas que o acompanharam fossem presos.

Dr. Alfredo, Juiz de Quixeramobim, adentrou a enfermaria da cadeia pública. Antônio encontrava-se deitado a uma maca, rosto inchado, coberto de hematomas. Seus pulsos dilacerados pelas algemas, estavam cobertos por bandagens.

Dr. Alfredo quase não reconheceu o homem pacato com quem trabalhara, tão deformadamente inchado seu rosto se encontrava.

- Olá, meu amigo... – pousou a mão sobre o ombro do enfermo, que abriu um dos olhos, pois o outro encontrava-se fechado por um inchaço.

- Excelência... – balbuciou Antônio, com muita dificuldade de mover os lábios partidos. Fez menção de erguer-se, mas foi contido pela mão do juiz.

- Precisa descansar. Amanhã torno a visitá-lo. Pode ficar tranqüilo que aquela acusação absurda foi retirada.

Antônio fechou os olhos e caiu em sono profundo imediatamente. Sonhou que estava no interior do navio, observando os homens que o colocavam no porão, ainda na Bahia.

Encontrava-se sentado a um canto do porão. Ouviu um barulho no topo da escada de ferro que levava ao convés e olhou para o alto. Dois homens, usando as fardas da polícia estadual da Bahia, arrastavam um homem magro, cabelo e barba raspados, mãos algemadas às costas. Entre socos e pontapés, derrubaram-no do alto da escadaria. O homem desceu as escadas de bruços, escorregando. A cada degrau, seu rosto batia nas pequenas plataformas de ferro. Chegou ao último degrau batendo fortemente a testa no chão.

Antônio ergueu-se assustado. O homem caído era ele próprio! A seu lado, uma voz fez com que virasse a cabeça.

- Os homens são capazes de crueldades impensáveis, desde que possuam o poder nas mãos.

- Que poder têm esses pobres diabos? – indagou Antônio.

- Veja por si mesmo – ordenou o homem vestido por uma espécie de batina branca, encimada por um capuz, que impedia que seu interlocutor visse seu rosto – o homem está à mercê deles. Está em seu poder. Este exemplo vale para toda a humanidade: poder sem coerência e bondade, sempre causa dor e horrores.

- Quem possui um poder qualquer, sobre qualquer outro ser, deveria demonstrar ainda mais responsabilidade. – sentenciou o Conselheiro.

- Você acaba de pronunciar a primeira das leis que deverá seguir, se desejar prosseguir nessa vida de peregrinação.

- Eu não quero ser peregrino, não quero ser nenhum santo! – exclamou aborrecido – somente desejo emprestar minha experiência ao meu irmão sertanejo, de modo que deixe de sofrer com a seca.

Os guardas desciam a escada, vagarosamente, sorrindo com a posição do homem de batina azul, deitado com o rosto no chão e o corpo inclinado, apoiado nos degraus da escada. Um deles chutou as pernas do homem, para afastá-las da passagem estreita.

- A sua vontade é, de tudo, o que menos importa – sentenciou seu interlocutor. – Os acontecimentos, quando se alcança um poder sobre as pessoas, tornam-se inexoráveis. Como um rastilho de pólvora aceso, todas as ocorrências se dirigem para um único fim, independente da sua vontade.
Os soldados pegaram o corpo desacordado do preso e o arrastaram até um canto, onde algumas correntes presas ao madeirame do costado indicavam a sua função. Acorrentaram os braços do prisioneiro às argolas e afastaram-se um pouco. Um deles pegou um balde e subiu correndo a escada.

O homem encapuzado segurou o braço de Antônio chamando:

- Venha assistir uma ocorrência...

A atmosfera em torno dos dois tornou-se esfumada, nebulosa. Em seguida, estavam em pleno sertão. Um homem, que Antônio imediatamente reconheceu como sendo o soldado que ficara no porão, corria atrás de uma menina de cerca de doze ou treze anos. Em dado momento, finalmente a alcançou, segurando seus cabelos e jogando-a ao chão de barro seco. Em poucos instantes, batendo a cabeça da pobre mocinha ao solo, rasgou suas roupas e a violentou.

- Preciso realmente assistir isto? – indagou encolerizado Antônio.

- Não. - respondeu o outro.

Com a negativa, novamente a atmosfera tornou-se nublada e retornaram ao porão. O soldado encontrava-se de pé, defronte ao homem acorrentado. Repentinamente, o soldado desferiu-lhe violento chute nos quadris. Ambos gemeram. Ouviu-se um estalido de ossos, que Antônio a princípio imaginara ser do preso, mas logo observou que o soldado havia quebrado alguns dedos com o chute.

Novamente, a visão do Conselheiro tornou-se nublada. Retornaram ao mesmo pedaço da caatinga onde o soldado violentara a menina.

A menina olhou de longe para o homem e percebeu seu olhar sedento. Adivinhando problemas, afastou-se caminhando rapidamente na direção oposta. O soldado tentou apressar o passo em direção à mocinha, mas claudicava doloridamente. Olhou para os dedos dos pés, à mostra, fora das tiras de couro das alpercatas. Os dedos estavam necrosados. Pela rouxidão e inchaço que apresentavam, em breve a gangrena obrigaria que as falanges fossem decepadas. Antônio sorriu, enquanto observava a menina distanciando-se do homem cuja decepção estampava-se em seu rosto.

De volta ao porão, o homem massageava os dedos dos pés por cima da ponta da sandália. O outro homem descia a escada, carregando o balde com a água que fora buscar. Ainda descendo os degraus, jogou o conteúdo do balde sobre o prisioneiro, que despertou.Outra vez, a paisagem desapareceu.

Antônio e seu acompanhante encontravam-se agora em meio a uma multidão, que parecia reunida para protestar por algo, defronte ao Palácio de Justiça da Bahia. Um grupo de policiais estava formado entre a multidão e a entrada do Palácio. Um dos milicianos era o soldado que subira ao convés para encher o balde com água. Este, repentinamente, sacou uma garrucha e disparou. Adiante, um homem pôs a mão no peito e caiu pesadamente ao solo. Os populares, ouvindo o disparo e vendo o homem cair, avançaram sobre os policiais. Os soldados, armados de fuzis, dispararam sobre a multidão. Aqui e ali, pessoas tombavam, mas o povaréu estava cego de ódio. Massacraram cada um dos milicianos que não conseguiu escapulir. Uma tropa a cavalo chegou, disparando suas armas e agitando suas espadas contra as pessoas. Em poucos instantes, a praça estava coberta de corpos. Por alto, Antônio calculava cerca de uma centena, entre mortos e feridos.
O Conselheiro olhou para o homem encapuzado que manteve-se calado, mas novamente a cena mudou. Voltaram para o porão do navio. O homem que trouxera o balde ergueu o preso pela gola do roupão com a mão esquerda e com a direita desferiu-lhe violento soco no rosto, que inchou de imediato.

Em um rápido esfumar do ambiente, Antônio e seu acompanhante encontraram-se em um aposento. O soldado estava sentado à beira de um catre, massageando os ossos da mão dolorida. A cena e o local mudaram novamente, retornando para a praça onde a multidão reunida, protestava. O soldado sacou a garrucha, mas esta caiu da sua mão, cujos ossos e juntas encontravam-se muito inchados. O sargento a seu lado, ao ver o ocorrido, rapidamente recolheu a arma caída e indagou rosnando:

- Está bêbado, soldado? Volte imediatamente para o quartel antes que faça alguma bobagem aqui.

A multidão nem se apercebeu do rápido diálogo entre o sargento e o soldado, enquanto este, humilhado, passava pelo meio da tropa, obedecendo à ordem do superior.

Em instantes, encontravam-se novamente no porão do navio. O soldado ainda encontrava-se segurando o prisioneiro pela gola. O homem de capuz perguntou a Antônio:

- Ele pode dar outro soco?

- Deve! – sorriu o Conselheiro.

- Agora você compreendeu a segunda lei que deverá seguir: cada acontecimento, por mais banal que possa parecer, possui um efeito em outro tempo e lugar.

- Por isso devemos amar nosso desafeto. Oferecer a outra face... – observou o Conselheiro.

- Exatamente. – corroborou o homem encapuzado.

Enquanto os homens espancavam o corpo de Antônio, uma chuva de raios dourados começou a cair sobre ele, que desmaiou novamente. Os finos raios continuaram a cair por algum tempo, mesmo depois que os homens deixaram de espancá-lo.

Em seguida, Antônio sentiu que a chuva se deslocara pelo porão do navio e agora caía sobre a sua cabeça. Foi sentindo-se imensamente feliz e abençoado por estar vivendo aquele momento. Tudo escureceu e abriu os olhos. Estava de volta à enfermaria. A noite ia avançada.

Em Salvador, o Cardeal Emiliano Koersh dialogava com o Arcebispo Dom Luis José.

- E se esse tal de Antônio for mesmo um santo, Eminência? – indagou o Arcebispo.

- Se ele fosse santo nós não estaríamos tendo esta conversa, bispo. Me admiro o senhor se deixar levar por uma boataria como essa.

- Nós temos o relatório do Padre Ibiapina.

- Aquele é outro aproveitador – observou o cardeal – a santa madre igreja há de puni-lo exemplarmente. Ele está ajudando a incitar o povo contra a igreja e contra o estado.

- Volto a insistir, meu padre – ponderou o clérigo – que podemos estar crucificando um santo...

O Cardeal ficou vermelho. Não estava acostumado a ver suas ordens desobedecidas.

- Bispo! Será que devo crer que o senhor também pretende insurgir-se contra a madre igreja?

O cardeal rodeou a mesa e parou diante da janela. A praça defronte a catedral encontrava-se bastante movimentada. Diversos sertanejos ainda se encontravam circulando por ali.

- Se o tal do Antônio fosse realmente um santo não estaria levando tantos inocentes a confrontarem-se com as autoridades. Além disso, finalmente conseguimos acertar um bom acordo com os militares que estão prestes a tomar o poder, enquanto ainda mantemos boas relações com o Imperador. Já imaginou se tivéssemos que nos relacionar e passear abraçados com um sujeito que se diz abertamente um abolicionista e revolucionário? Isso significaria nos declararmos abertamente contra o Imperador e o que é pior, contra os presidentes de província.

“Não, meu bom amigo. Este homem é inimigo do Imperador,  é inimigo do Império e inimigo da igreja”.
Compreendendo que a ordem do Cardeal seria executada, independente do que fizesse, o bispo anuiu.

- O que faço com o relatório do Padre Ibiapina, senhor? – indagou.

- Uma fogueira! – e saiu sorrindo com a piada que fizera.

O bispo ainda teria muito com que se preocupar. Precisava apagar da memória do sertanejo a memória do Santo Antônio Conselheiro. Além disso, ainda havia  o padre Antônio Ibiapina. [...]

Este livro recebeu o prêmio Nacional de Novelas Históricas do Governo da Bahia e será publicado em breve. 

O Fator TARIAL

Solicito encarecidamente que leia a mensagem abaixo, até o final.


[...]Meu pai é militar, serve em um quartel da Marinha Brasileira. É sargento.
Por motivos óbvios, esse será o único detalhe pessoal que darei a meu

respeito. Enquanto desconheço as particularidades dos fatos que passo a
narrar, temo por minha segurança.
Sou meio avesso à fatos inacreditáveis. Se podem ser confirmados
cientificamente, ou se têm explicação lógica, fazem parte do meu cotidiano.
Caso contrário, prefiro mantê-los afastados do meu dia-a-dia. Esse
comentário é importante, pois sou muito cético em relação a ovnis,
espíritos, assombrações e similares. Quando leio em algum jornal ou revista
alguma notícia desse gênero, não me permito afetar por ela e passo ao
próximo tópico.
Há uns poucos meses atrás, li sobre o lançamento de um livro de uma
escritora brasileira cujo assunto seria a comunicação de extra-terrestres
com nossa civilização. Segundo ela, os habitantes de um outro planeta
estariam nos "acompanhando" o desenvolvimento desde os
primórdios. E sempre ajudando nosso desenvolvimento, influenciando,
"através dos sonhos", algumas mentes, que depois viriam a fazer
descobertas incríveis. Ainda segundo essa escritora, essa seria a explicação
para descobertas que mudariam o rumo da raça humana, expostas por mentes
incríveis, como Einstein, Galileu, Sócrates, apenas para citar alguns de
toda a história da humanidade. Desnecessário dizer que essa reportagem eu li
como quem lê um anúncio de cigarros com a foto de uma mulher bonita em
trajes sumários. A mulher chama a atenção, mas o conteúdo não suporta dez
segundos de raciocínio lógico. Por que eu vou comprar cigarros? Para fumar?
E que benefício isso me traz? .
A reportagem ainda falava que nos últimos anos esses seres estariam
contactando, através de sonhos, um número realmente expressivo de
terráqueos, de modo a nos ensinar e preparar para uma civilização melhor.
Esses sonhos seriam forjados segundo a crença de cada pessoa. Assim, se uma
pessoa acredita em anjos, em sonho seriam anjos que lhe apareceriam para lhe
dar ensinamentos que essa pessoa depois deveria repassar aos seus próximos.
Ou se a pessoa foi criada em uma religião cujos profetas têm contato com os
mortos, em seus sonhos um espírito de alguém conhecido é que lhe daria os
ensinamentos e assim por diante. Mas já nesse ponto eu passei adiante. Esse
assunto não pode ser comprovado cientificamente e justamente por isso não me
interessava. Mas deveria...
Periodicamente tenho uns sonhos tão ilógicos que desperto. Sou obrigado a
confessar que desde criança tenho o hábito de prestar atenção aos mínimos
detalhes de tudo o que me rodeia. Se algo destoa do racional, me chama a
atenção. E tudo o que é irracional nos meus sonhos, me faz despertar.
Justamente porque desde a infância tenho uns sonhos irracionais. Apenas para
citar um exemplo, se eu vejo uma pessoa pular de um prédio e sair voando, ao
invés de se esborrachar no chão, isso é uma prova de que estou dormindo.
Basta que eu acorde para comprovar. Imediatamente desperto para verificar
que estava absolutamente certo.
Acho que esse meu jeito racional me acompanha desde a tenra infância. Eu
tinha onze anos de idade quando o carteiro deixou uma carta em nossa casa. O
remetente era a minha mãe e havia um carimbo no envelope: AO REMETENTE
- DESTINATÁRIO NÃO ENCONTRADO. Com a falta de educação inerente a uma
criança da minha idade, abri a carta, que era dirigida a um famoso psicólogo
infantil da época:
"Prezado Dr. X:
Sou mãe de um menino de onze anos de idade que me surpreende pela
maturidade. Demorou muito a falar. Chegamos a levá-lo a especialistas, pois
quando queria determinada coisa simplesmente a apontava. Em vão tentávamos
fazer com que falasse, se bem que demonstrava nitidamente que compreendia
tudo o que dizíamos, o que afastava a hipótese de ser surdo. Sua primeira
palavra foi pronunciada aos dezoito meses. Ficou apontando uma prateleira no
alto do armário da cozinha e murmurando 'hã - hã`. Pensamos que
queria alguma coisa de lá e ficamos mostrando cada objeto que havia.
Mostramos biscoitos, pratos, xícaras, alimentos... depois de meia hora de
frustradas tentativas ele pronunciou: LAGARTIXA! - assim, sem nenhum
erro de pronúncia. E vimos que realmente uma lagartixa havia entrado no
armário. Daquele dia em diante ele passou a falar, como se sempre tivesse o
feito.
Isso foi apenas uma das esquisitices do meu filho, que não tem o costume
de brincar com os coleguinhas. Cerca de três meses depois, estávamos no
consultório do dentista. Ele iria fazer a sua primeira aplicação de flúor
nos dentes. Apontou para uma revista e perguntou: Mãe, o que é isso? Ao que
respondi: uma revista. E ele ficou repetindo a pergunta, com o dedinho
apontado para a capa. Uma senhora que estava olhando sorriu e falou: ele
está mostrando a letra M. Era a revista MANCHETE. Daquele dia em diante
sempre que notava uma letra nova em algum lugar, perguntava que letra era
aquela. Depois passou a perguntar que som faziam duas letras juntas. Ainda
assim, nos surpreendeu a todos quando antes de completar dois anos lia
perfeitamente. Quem percebeu foi o pai, que notou que nosso filho parara de
indagar a respeito das letras. Ele pensara em comprar um daqueles joguinhos
de cubos com letras para o menino, mas notou que este perdera o interesse.
Certa tarde, enquanto observava o menino brincando com jornais velhos,
perguntou por que não indagava mais quais eram as letras. Porque eu já sei
todas! Foi a sua resposta. O pai sorriu e começou a apontar as letras e
perguntar quais eram. E sem titubear, Ricardinho passou a apontar as letras
e dizer quais eram. Em poucos minutos meu marido me chamou e entregou o
jornal nas pequenas mãos do meu bebê, que passou a ler em voz alta um trecho
de uma reportagem.
Desse dia em diante, o pai passou a lhe comprar livros. Antes de entrar
para uma escolinha já havia lido livros que dificilmente a sua professora
lera. Leu Dickens, Jorge Amado, Poe, Nietzsche, Voltaire, e tantos outros,
cujos autores em geral era ele mesmo quem pedia, bastava que lesse alguma
citação em algum lugar.
Assim, talvez até mesmo por culpa nossa, sua vida social é muito
reservada. Seu prazer se resume desde então nos livros. Não pratica esporte
algum, não tem amigos, nem na escola ou no condomínio onde moramos,
raramente assiste televisão, não gosta de sair de casa e detesta receber
brinquedos de presente. Prefere livros. Não importa o assunto.
É comum também encontrá-lo sentado por horas a fio, como se estivesse em
transe. Nesses momentos, que estão se tornando cada vez mais freqüentes, não
costuma atender aos chamados e fica muito irritado se perturbado. Fico muito
preocupada em ver meu filho tão isolado. Estou correta em acreditar que ele
deveria estar brincando em vez de ler livros? Ultimamente tenho pensado em
proibí-lo de ler livros. Talvez limitá-lo a um livro ou dois por mês (ele
costuma ler quatro ou cinco por semana - às vezes chega a ler mais de
um, simultaneamente). O que o senhor acha? Agradeceria imensamente se o
senhor pudesse nos receber para uma consulta. Em caso de impossibilidade,
gostaria que o senhor me indicasse algum profissional a quem pudéssemos
recorrer..."
Lembro que quando li a carta de mamãe meu primeiro impulso foi de tentar
explicar a ela que os meus momentos de "transe" em geral eram
após a leitura de um livro, quando eu ficava raciocinando sobre o assunto
sobre o qual o autor discorrera. Nunca fui de simplesmente aceitar algo como
um fato, pelo menos não antes de uma criteriosa análise das informações
lidas. Então costumava sentar em determinado canto e ficar repensando,
digerindo cada palavra do que lera. Esse sempre foi o meu maior prazer na
leitura. Os momentos após, quando nada mais me distraía para poder analisar
o que lera. Não raro, pegava o livro de volta para conferir algo cuja
interpretação me causava alguma dúvida.
Quanto aos brinquedos, a leitura sempre me fascinou de tal modo, que os
brinquedos e brincadeiras das outras crianças me entediavam. Ler um livro
era muito mais fascinante!
Pensando no quanto minha mãe estava aflita e, muito mais preocupado em ser
privado do meu hábito, resolvi mudar meus costumes. A primeira atitude que
mudei foram os momentos de absorção após a leitura de um livro. Dizia que
estava com sono e me deitava. Fechava os olhos e continuava a repesar o que
acabara de ler. Creio que minha mãe nunca notou.
Passei a brincar com os brinquedos que tinha e nunca usara. Também os
usava para raciocinar sobre os livros. Quem me olhasse, diria que eu estava
brincando como qualquer criança normal. Na verdade, nem prestava atenção ao
brinquedo. Era apenas uma maneira de raciocinar sem ser interrompido, ou ser
considerado anormal.
O mais difícil foi me relacionar com as outras crianças da minha idade.
Suas conversas eram tão fúteis. E eles não morriam de amores por mim. Então
passei a me oferecer para ajudá-los nas matérias da escola que tivessem
dificuldade. Em troca, eles deveriam passar na minha casa e me chamar para
jogar ou brincar. Na verdade, eu escondia sob a blusa um livro e descia para
o play-ground. Corria um pouco, caía, me sujava e sentava a um canto para
prosseguir minha leitura. Quanta felicidade podia notar nos olhos de minha
mãe quando eu entrava em casa, todo sujo e cansado. Enfim, seu filho era uma
criança normal.
Quando estava cursando a oitava série, o colégio contratou uma nova
professora, que não dava aulas para minha turma, entretanto vivia me
encontrando na biblioteca do colégio, onde eu sempre perambulava, em busca
de algo de bom para ler. Passarei a chamá-la de Dona Teresa. Como eu, a
professora que devia estar com seus quarenta e poucos anos então, adorava
ler. Foi a única pessoa com quem eu comentara a respeito de algum livro até
então. Dona Teresa me indicou - e emprestou! - ótimos livros. Indiquei
a ela alguns dos que li também. Acho que foi a única pessoa da minha
infância que realmente me compreendeu. No fim do ano, após o término do ano
letivo, meu pai seria transferido para outro estado e eu teria que estudar
em outra escola. Dona Teresa me presenteou com um livro de M. Chandessus, um
historiador francês, especialista na história da França Medieval. Na
contra-capa, escreveu uma dedicatória: Ao meu companheiro, rato de
biblioteca...
Eu tinha então treze anos de idade.
No Segundo Grau eu já não era considerado tão esquisito assim. Afinal, é
justamente nessa faixa etária em que as crianças começam a descobrir o
prazer da leitura. Apenas os temas que eu lia é que eram meio exóticos. Mas
isso passava desapercebido pelos colegas e professores.
Terminei o curso secundário e entrei para uma faculdade de Matemática. Na
verdade, os números sempre me impressionaram. A lógica sempre me fascinou.
Terminei a faculdade e como tantos outros brasileiros, estou desempregado.
Andei lecionando em alguns colégios, mas confesso que não tenho a paciência
necessária a um professor. Não consigo entender a dificuldade que alguém
possa ter em compreender algo tão lógico como a matemática. Fiquei muito
frustrado enquanto lecionava. Antes do ano letivo terminar, pedi demissão do
colégio, alegando problemas de saúde, o que não deixava de ser verdade, pois
andava muito amargurado com a profissão escolhida.
Tenho atualmente vinte e três anos de idade, sou solteiro e não tenho
nenhuma namorada. Continuo tendo meus problemas de relacionamento. Meu pai
agora é lotado em uma base da Marinha. Adia ao máximo sua reforma. É aqui
que na verdade toda minha aflição começa.
Há alguns dias atrás, sonhei que ia visitar meu pai no quartel onde está
lotado e ele me apresentou ao seu Comandante. O Oficial foi muito cordial,
embora distante. Quando nos afastamos, meu pai explicou que estavam com um
problema com um canhão que o Brasil comprara recentemente dos Estados
Unidos, pois não conseguiam que o tiro chegasse sequer perto do alvo. O
artefato chegou a ser levado de volta e lá, para desespero dos técnicos
brasileiros, o aparelho funcionou perfeitamente bem. Os técnicos
norte-americanos chegaram a comentar que era apenas resultado da imperícia
dos militares brasileiros, que ficaram mordidos com o comentário. Mas, a
despeito de tudo o que tentassem, não conseguiam apontar de maneira
aproximada que fosse, o tiro do artefato. Sendo filho de militar e tendo
algum conhecimento de tiros de artilharia, sei que um canhão atira sem ver o
alvo. A trajetória de seu projétil é calculada com base nas informações do
terreno. Raciocinando assim, excluí qualquer possibilidade de erro do
aparelho. Disse ao meu pai:
- Estão procurando no lugar errado...
- Como assim? - interessou-se.
- Não há defeito no canhão, ou na sua carga de pólvora. É a latitude!
- Latitude?
- Sim. A Terra não é uma bola redonda. Ela é achatada e um pouco mais larga
na metade sul. Vocês estão usando uma tabela de valores para latitudes acima
da linha do Equador. Mudem a tabela ou convertam seus valores... se quiser,
posso fazer isso...
Nesse momento, ouvi uma ovação. Alguém gritava eufórico:
- Eu não disse? Esse é o homem! Tragam-no para trabalhar no Fator Tarial!
É ele a peça que falta!
A voz vinha de todos os cantos e de lugar nenhum ao mesmo tempo. Era tão
ilógico que despertei.
Ainda era madrugada. Fui até a cozinha e preparei um chocolate quente.
Apesar de tentar não fazer barulho, acho que não consegui, pois logo meu pai
entrou pela cozinha.
- Perdeu o sono, filho?
Enquanto levava a xícara à boca, assenti com a cabeça. O velho serviu-se
de outra xícara de chocolate e sentou à minha frente.
- Pai, o que é Fator Tarial?
A expressão de seu rosto se contraiu de tal maneira que me assustei. Notei
que estava em uma profunda luta interna. A xícara ficou suspensa no ar, no
caminho de sua boca. Ficou me fitando firmemente. Por fim, resolveu falar:
- Não gosto que você ou qualquer outra pessoa mexa nos documentos que eu
eventualmente trago para casa.
Dessa feita, foi a minha vez de ficar surpreso. Além de realmente ser algo
que existia, ele estava trabalhando nisso! Meio nervoso, como que sem saber
que atitude tomar, tentei repetir o que dissera no sonho:
- Eles estão procurando no lugar errado. A Terra não é uma bola. É
achatada nos pólos e mais larga na metade sul. Estão usando valores de
latitudes relativas ao norte do Equador. Precisam trocar os valores que têm
por valores relativos ao sul.
Meu pai ficou me olhando com surpresa. O que me deu oportunidade para
explicar que a curvatura da terra nos trópicos ao sul do Equador era menor
que ao norte. Então, uma tabela de cálculos para disparar um canhão de longo
alcance no norte tenderia a errar o tiro ao sul, simplesmente porque a terra
no sul é mais plana. Meu pai ouviu com atenção minha explicação. Não fez uma
pergunta sequer. Por fim, levantou-se e disse:
- Adorei a sua aula. Agora volte a dormir. Quando eu voltar conversaremos
sobre os documentos que trago para casa.
Deu duas pancadinhas em meu ombro e foi para o banheiro, fazer a barba e
tomar um banho.
Dois dias depois o helicóptero em que viajava caiu no mar, quando ia para
uma ilha onde a marinha realiza testes. Apenas o corpo do piloto foi
resgatado. Os corpos dos outros quatro tripulantes jamais foram encontrados.
O enterro simbólico foi ontem. Durante o velório, notei algumas pessoas em
atitude estranha. Haviam seis homens, dispersos pela massa de amigos e
parentes, aparentemente isolados uns dos outros, que se fitavam entre si
esporadicamente e a todo momento um deles estava me olhando fixamente. Os
seis estavam usando ternos escuros. Aparentavam cerca de trinta anos e
possuíam compleição física de militares. Mas evidentemente eram
desconhecidos dos militares presentes ao velório. Como já citei antes, sou
muito observador, os detalhes me impressionam. Apesar de ser um velório de
um militar, aqueles militares de terno e gravata destoavam do conjunto. Acho
que os fitei com tanta insistência que seria capaz de reconhecê-los em
qualquer lugar agora.
Isso me valeu de algo, pois hoje pela manhã, fui ao quartel pegar os
pertences de meu pai e notei que fui seguido por todo o dia por um carro com
dois desses sujeitos em seu interior. Apesar de estarem usando roupas
esportivas e parecerem dois amigos em atitude normal, os reconheci
facilmente. Do quartel fui ao banco para sacar um dinheiro da poupança. Na
saída, na calçada defronte ao banco um casal conversava em tom baixo. A
mulher eu nunca vira, mas o homem era um dos seis. Procurei gravar a
fisionomia da mulher. Parei num sinal perto de casa e no carro ao lado,
conversando animadamente ao celular, notei outro dos seis homens, este nem
sequer me olhou. Não tenho dúvidas, estou sendo seguido.
Não sei o que está acontecendo, mas tenho certeza de que há algo estranho.
Primeiro o sonho com o Fator Tarial, depois a morte de meu pai e finalmente
as pessoas que estão me seguindo. Temo por minha segurança. Como ainda não
tenho a menor idéia do que possa estar acontecendo, estou enviando uma cópia
desse texto para diversas pessoas, aleatoriamente, que tenham alguma coisa a
ver com o jornalismo. Criei um programa de computador que envia
automaticamente por e-mail esses textos para as pessoas pré-determinadas.
Ainda que algo venha a acontecer comigo, essas pessoas receberão as
mensagens já escritas. Se eu levar um determinado número de dias sem
reprogramar, o destinatário receberá uma mensagem dizendo "Com essa
mensagem você fica sabendo que Ricardo está morto". Solicito ao amigo
que está recebendo esse texto que só então publique essas linhas. [..]

(Se desejar ler mais dessa narrativa, escreva um comentário no livro de visitas)

ERP

[...]Erp raspou com as mãos a pedra encravada no morro. O musgo enegrecido encheu a ponta dura de suas falanges. Enquanto enrolava o líquen nos dedos, formando uma pequena bola, olhou à sua volta. Jogou a bolota verde na boca aberta e tentou imaginar como seria aquela paisagem algumas décadas antes. Fechou os olhos por um instante, buscando visualizar as árvores que um dia abundaram naquela colina.

 Desde que a guerra começara, nenhum humano vivo fora mais visto sob a luz do dia. A camada de ozônio chegara a quase acabar. Nenhum representante da espécie humana podia mais receber a luz do sol diretamente na pele. Forçadamente, nessa época, os cientistas buscaram desenvolver uma raça de humanóides cuja pele não fosse sensível à radiação ultravioleta. Um congresso de estudiosos delineara como deveria ser a nova raça de seres que substituiriam os humanos quando fosse necessária a sua presença sob a luz cancerígena do sol.

Deveriam ser fortes para serem capazes de executar qualquer serviço braçal; sua capacidade de raciocínio precisava ser a menor possível, de modo a obedecerem sem discussão às ordens recebidas por rádio. Sua alimentação consistiria basicamente de liquens e musgo, pois cuidariam da produção de alimentos para a humanidade. Para um maior controle da população, seriam estéreis.

 Assim foram os primeiros humanóides. Com o passar do tempo, entretanto, alguns geneticistas, ávidos por lucro ou fama, escudados pela total falta de uma legislação que protegesse a nova raça, principiaram a inserir algumas modificações.

O ano era o de 2019. Já não havia mais a menor condição de um humano receber um único raio de luz do sol. A camada de ozônio até poderia se recompor, mas seriam necessários muitos anos até que isso ocorresse. No cenário científico, todos os países do globo já eram capazes de modificar raças geneticamente. Um a um, primeiro de maneira sigilosa, depois abertamente, os países começaram a apresentar os seus humanóides.

Sob todos os aspectos, o representante espanhol era o melhor: mais forte, de couraça mais rígida, com sexo definido, entretanto incapaz de se reproduzir, com a capacidade intelectual de um chimpanzé e dócil.

Aos poucos, óvulos desse espécime foram contrabandeados para todos os outros países. O homem finalmente assumira o poder de Deus e os humanóides abundaram sobre a face da Terra.

A despeito da iminência da catástrofe, a emissão de poluentes para a atmosfera não diminuiu um grama sequer. As descargas eram cada vez maiores. Simultaneamente, a construção civil passou a trabalhar nos subsolos. As cidades começaram a se aprofundar cada vez mais. Cerca de uma vintena de anos depois, o homem já não podia mais sair à luz do dia. As cidades eram todas subterrâneas. Não se faz necessário perder muito tempo explicando que principalmente devido ao câncer de pele, a população mundial caíra para cerca de um bilhão de habitantes no ano de 2020. A produção de humanóides estava a todo vapor. Era necessário que os corpos fossem levados a um crematório. Não havia ainda os enormes cemitérios debaixo da terra. Temia-se, com razão, que se tantos corpos fossem enterrados, acabassem por contaminar os lençóis aquáticos subterrâneos.

A vida praticamente continuava a mesma. A diferença era que humanóides imunes ao câncer de pele executavam todo trabalho sobre a superfície. Humanos apenas nos subterrâneos.

Algumas cidades de veraneio foram edificadas na superfície, cercadas por altos muros e cujo teto era de vidro opaco à radiação ultravioleta. Mas eram apenas pousadas turísticas. Ninguém vivia ali definitivamente.
Para facilitar a locomoção, as residências no subsolo eram interligadas por dutos através dos quais corriam cápsulas monitoradas por uma rede de supercomputadores. Cada casa possuía seu tubo com uma cápsula. Bastava digitar o destino em uma tela dentro do equipamento e deixar-se levar. Em questão de instantes, o passageiro chegava ao destino.

As cápsulas geralmente eram utilizadas individualmente, mas comportavam com tranqüilidade até três passageiros. Eram cilindros de cerca de três metros de altura, por um de diâmetro, completamente acolchoados na parte de trás, com um encosto para a cabeça. A porta, que corria lateralmente, dando à volta ao resto do veículo, continha o painel do computador de bordo, que possibilitava mudar o destino, caso interessasse ao passageiro. Cada cidade possuía um centro de controle de tráfego, operado por um supercomputador, que impossibilitava as colisões. Se vistos por um aparelho de raio-x, os túneis de transportes enlouqueceriam qualquer um. Por questões de átimos de segundos, dois aparelhos passavam por um cruzamento, sem se tocar. Em uma cidade com um milhão de habitantes, por exemplo, o tráfego era ininterrupto. Entretanto, devido ao controle preciso do computador, não ocorriam paradas, mesmo que todos os passageiros resolvessem mudar de direção ao mesmo tempo e se dirigissem a um mesmo local, o controle diminuiria a velocidade de uns, aumentaria a de outros, faria com que alguns fizessem um caminho mais longo, de modo que todos chegariam ao destino, sem interrupções do tráfego.

No caso de uma reunião de família na casa de alguém, por exemplo, o computador avisaria ao passageiro que dispunha de tantos segundos para abandonar o veículo ao chegar a seu destino, pois o casulo seria recolhido para a chegada de outro. Caso o passageiro levasse um tempo maior, um alarme soaria, os outros cilindros teriam sua trajetória renovada de modo a manter o fluxo. Entretanto, enquanto o passageiro não abandonasse o veículo este não seria recolhido, a menos que fechasse a porta e autorizasse um novo destino.

Os cilindros eram movidos a ar. Justamente devido ao grande controle efetuado pelo computador, o desprendimento de energia era mínimo. Um veículo, ao se deslocar, deslocava o ar à sua frente, impelindo outro trecho de tubo. Eram como dardos em uma zarabatana. Não havia espaço para o ar escapar lateralmente.

O sistema de transporte por tubos talvez fosse a maior maravilha desde que a humanidade passara a habitar o subterrâneo.

Na superfície, o espaço que antes pertencia às grandes cidades passou a ser ocupado por intermináveis plantações e fazendas de criação, todos operados à distância e manuseados pelos humanóides. Mas havia um problema.

Os primeiros humanóides foram gerados no ventre de mães humanas voluntárias. Depois, algumas fêmeas foram utilizadas para gerá-los. Entretanto, uma parcela destas não suportava a tarefa por muito tempo. O período de gestação era de quatro a cinco meses. A fêmea estava apta a procriar a partir dos cinco anos de idade. Geravam, em média, quatro filhos e depois passavam a sofrer abortos espontâneos. Não serviam para a procriação, nem outra coisa. Qualquer macho era mais forte. Mas ainda viveriam mais cerca de trinta anos! A  solução era o sacrifício.

Devido à crueldade do ato de se eliminar um ser vivo, simplesmente pelo fato de não servir mais para a reprodução, surgiram as primeiras organizações de defesa dos humanóides. Essas organizações foram as primeiras a organizá-los em famílias e inserir a modificação que os tornaria reprodutivos.

Nesse ponto surge o inesperado. A Lei de Morphy. A terceira geração sexuada de humanóides surgiu com inteligência.

No ano de 2059 aconteceu o primeiro congresso mundial dos humanóides. Exigiam serem tratados com respeito e humanidade. Não seriam mais escravos, não admitiriam mais serem forçados a executar trabalhos perigosos, nem jornadas exaustivas de até dezoito horas de trabalho. Teriam direito a freqüentar qualquer curso, disputar qualquer vaga de trabalho, ainda que fosse de execução exclusiva de humanos. E. principalmente, que a humanidade passasse a tratá-los como iguais. Exigiam serem chamados a partir dali como “irmãos da superfície” ou simplesmente heliófilos. Eram reivindicações justas, mas a sua aceitação colocava em xeque a sua própria existência.

A resposta dos governantes da humanidade foi simples: ordenaram que tropas eliminassem os líderes revoltosos. Estava iniciada a guerra entre as raças: a primitiva e a mutante; a criadora e a criada. A guerra entre os naturais e os evoluídos.

A humanidade desenvolveu uma nova raça de mutantes, ainda mais obtusa que a anterior. Suas mentes eram vazias. Eram verdadeiros autômatos. Sua função era encontrar e matar os insurretos.

Erp montou no veículo e ligou o motor. A máquina era uma espécie de motocicleta sem rodas. Na parte de baixo, um poderoso eletroímã gerava um campo magnético tão forte que elevava o veículo a cerca de meio metro de altura. Duas turbinas, uma em cada lateral, puxavam o ar da frente para trás do equipamento, o que fazia com que se deslocasse, usando o ar como uma corda. Um aquecedor de microondas, ao ser ligado, poderia aquecer o ar que passaria pelas turbinas, o que faria com que o aparelho se deslocasse a uma velocidade ainda maior e, dessa forma, elevar-se a uma altura considerável. Esses veículos foram chamados inicialmente de eletrociclos, entretanto, devido à semelhança, passaram a chamá-los de cavalos.

Michelle desligou o monitor, balançando a cabeça.

- Guerra estúpida! – exclamou – Gente estúpida...

No painel do computador que desligara, a imagem da bomba que acabara de detonar sobre a cidade dos humanóides ainda estava impressa em seu cérebro.

Desconectou a tela dobrável e, levando-a consigo, encaminhou-se à sala do chefe. Outra das maravilhas do subterrâneo, as telas dobráveis haviam chegado para substituir o papel. Na verdade, haviam sido criadas para servirem como monitores de computadores, mas com a guerra e a dificuldade de obtenção da madeira, haviam sido redescobertas.

Entrou inflamada na sala do Diretor de Imagens do Ministério da Guerra.

- Veja isso! – exclamou – com esses ataques só fazemos aumentar ainda mais o tempo de recomposição da camada de ozônio!

Enquanto falava, desdobrava a tela sobre a mesa do chefe.

- Isso não é o importante... – contemporizou o Diretor – devemos nos ater às baixas inimigas.

- Parece que destruímos uma cidade... – a voz suavizou, mas o semblante ainda estava carregado – Só tem um porém...

- Qual?

- Apesar do ataque, não vi nenhum humanóide nos escombros, ou sequer um movimento. Talvez estejamos bombardeando alvos inúteis.

O homem à frente de Michelle fitou-a irritado.

- Nossa inteligência confirmou a importância do alvo.

- Nós também somos essa inteligência – retrucou – talvez estejamos buscando informações nos canais errados...

- Basta! – rosnou – volte para sua mesa antes que a disponibilize para outro setor.

Michelle enrolou a tela e saiu da sala. Não conseguia compreender como seus superiores poderiam ser tão obtusos. Parecia tão óbvia a possibilidade de que as imagens e os relatórios que recebiam da superfície estivessem distorcidos.

Encaminhou-se para a saída do pavimento e entrou no tubo que a levaria ao observatório dos satélites. Precisava confirmar suas suspeitas.

Erp sobrevoou a área do bombardeio. As maquetes de barro haviam sido totalmente destruídas. Como os humanos poderiam ser tão estúpidos? A radiação mal afetava os heliófilos. No máximo causavam uma leve enxaqueca, um ligeiro mal-estar. Ainda bem que os inimigos não haviam descoberto isso.

Toda a área estava calcinada. As bombas de calor haviam executado seu serviço de modo satisfatório. A praga das plantas parecia ter sido eliminada.

Cerca de oito anos antes, os heliófilos haviam descoberto uma nova praga que estava acabando com as plantações. Os biólogos tinham elementos suficientes para crer que alguma espécie de microorganismo que se alimentava do lixo humano evoluíra para uma espécie que estava acabando com a vegetação. Apenas as bombas de calor dos humanos pareciam ter o poder de dizimá-los. Chamavam a esses microorganismos de biopraga, simplesmente.

Para os heliófilos, cada ser vivo na natureza contribuía para a evolução do todo. Mesmo os humanos eram parte da evolução do planeta. Cada ente vivo possuía um lugar específico na vida do planeta. Entretanto, devido às guerras, à errada manipulação genética, algumas criaturas não se enquadravam na evolução: eram as biopragas. Todas eram tratadas do mesmo modo: precisavam ser eliminadas completamente.

Alguns dos pensadores heliófilos consideravam os humanos como biopragas. Por sorte, nem todos.

Erp era um cientista respeitado por suas conquistas, entretanto, devido às suas idéias de convivência pacífica com os humanos, não era muito ouvido. Suas idéias às vezes sequer chegavam a ser cogitadas pelo Conselho.

Se considerado nos padrões humanos, Erp teria cerca de trinta anos de idade. Nos padrões heliófilos, era um homem inteligente, porém sensível demais.

Alguns anos antes, conseguira arregimentar um grupo de simpatizantes e agiam praticamente sozinhos. O Conselho sabia da existência do grupo, mas ignorava suas ações, enquanto não comprometessem as atividades da sociedade ou a segurança da comunidade.

O grupo de Erp conseguira infiltrar-se nas comunicações dos humanos com os satélites. De início, alguns pretenderam eliminar as comunicações, mas Erp fora contrário à idéia. Seria muito mais proveitoso se enviassem imagens falsas aos humanos.

Erp recolheu algumas amostras do solo e da vegetação calcinada. Ergueu vôo com seu cavalo e abriu um saco com sementes, espalhando-as ao sabor do vento, sobre a área bombardeada. Em breve retornaria para ver as mudas.

As sementes pré-germinadas eram uma descoberta sua. Bastava que entrassem em contato com o solo para começarem a germinar. Em uma semana o vale estaria coberto de pequenas mudas.

Michelle entrou no observatório dos satélites. Era um enorme salão equipado com inúmeros computadores, cerca de vinte quilômetros abaixo da superfície. Devido à sua importância para a sobrevivência das comunicações e, conseqüentemente da humanidade, era uma das áreas mais seguras do subterrâneo.

Rebuscou cada transmissão de imagem de cada satélite. Todas pareciam fornecer a mesma imagem, os mesmos cenários. Antes do bombardeio, uma verdadeira comunidade de humanóides. Diversas máquinas e equipamentos, de transporte de pessoal, de maquinário, de armamentos. Em um determinado ponto, a câmera estacionou sobre um grupo de soldados, fortemente armados que marchava, aparentemente exercitando-se. Suas pesadas botas esmagavam a relva.

- Onde foi que eu já vi essas imagens? – perguntou-se de modo automático, como se estivesse falando com outra pessoa.

- Eu também me perguntei isso horas atrás... – a voz a seu lado quase a surpreendeu.

Era Sergei, o operador do satélite.

- Vamos ver as outras imagens que recebemos de tropas dos humanóides de um mês para cá! – ordenou Michelle.

Em cada local que bombardearam havia movimentação de tropas antes do bombardeio. Contudo, depois do  bombardeio, nem um corpo podia ser divisado.

- Comentei isso com o General Cardoso um dia desses e ele respondeu que o poder de destruição das bombas de calcinação é tão grande que os corpos desintegram... – comentou o rapaz.

- E você se convenceu? – indagou Michelle.

- Não... – fez uma careta e continuou – mas obedece quem tem juízo...

- Nem eu – emendou a moça.

- Além disso, não há uma marca de um corpo calcinado sequer... nenhuma vítima. Muito estranho.

Uma das armas mais eficientes dos humanos no combate aos mutantes eram os absorvedores. Autômatos sobre eletrociclos, munidos de diversos tentáculos. Bastava que conectassem um desses tentáculos a qualquer ser vivo e absorviam sua eletricidade. A conseqüência da absorção variava de acordo com a potência utilizada. Ia desde um simples desmaio até a morte.

Essas máquinas eram capazes de deslocar-se à mesma velocidade dos eletrociclos. Sua bateria era carregada pela energia que absorviam. Por esse motivo, os heliófilos as chamavam de “parasitas energéticos”. [...]

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Perdido (título provisório)


A quem visse, pareceria estar defronte a um acometido de ataque de epilepsia. Entretanto, para azar do rapaz, somente naqueles momentos possuía algum tipo de lucidez.
Estava ao lado de um amigo. Suas mãos começavam a tremer involuntariamente. Seu corpo todo estremecia, mal conseguia se manter de pé. Sua língua enrolava e sua voz saía na forma de um grunhido que aprendera a controlar, podendo se fazer inteligível a quem o conhecesse.
Colou as costas à parede e sentiu que era ali. Percebeu a poça d’água formada na calçada e colocou as mãos na lama. Aquilo o acalmava.
- É aqui. Tenho certeza que é aqui. Finalmente está acabando...
- Como pode saber? – indagou Paulo.
Fazia um esforço enorme para falar. Não o gastaria respondendo banalidades. Com o corpo em convulsões, entrou no shopping.
Era um shopping de produtos naturais, plantas, ervas, artesanato. Um imenso galpão, cujo espaço interno havia sido dividido em diversas pequenas lojas, todas de alvenaria. Os corredores estavam amplamente enfeitados com plantas. Naquele, em especial, diversos vasos semelhantes a bacias, sobre pedestais de cerca de um metro de altura, com diversas plantas, cuja terra estava completamente encharcada. Colocou as mãos dentro de um dos vasos e acariciou as plantas. Aquilo o acalmava. Talvez colocar a mão na terra molhada, ou na água, ou ainda simplesmente o contato com as plantas, não saberia dizer, mas apesar de todo o tremor que sacudia seu corpo, sentia-se bem e o tremor diminuía de intensidade.
Os corredores eram todos idênticos, meio em diagonal, como as lojas, de modo que pareciam terem sido construídas sempre aproveitando a metade de trás da parede da loja vizinha. Assim, quem entrava no corredor, via a frente de todas as lojas, com seus letreiros luminosos, todos discretos, seguindo um único padrão. Todas as fachadas das lojas usavam pastilhas de cerâmica vermelha, lembrando pequenos tijolos. Tijolinhos. O passeio, bem como os bancos e os vasos de planta, eram todos de concreto. Para corrigir a posição das lojas, o arquiteto elaborara uma estreita calçada, coberta de seixos brancos, apenas para que compusessem uma visão retilínea do passeio.
O rapaz foi caminhando diretamente em direção à ultima loja do lado esquerdo. Sabia qual o corredor e agora sabia qual era a loja. Parou defronte a porta de madeira com a metade superior de vidro, onde podia-se ler: Aromas Naturais. Plantas e folhas aromáticas. O tremor pareceu acalmar um pouco. As idéias embaralhavam na mente quando isso acontecia.
Paulo o observou e teve pena. Como poderia acontecer algo semelhante a alguém tão simples e pacato?
- É aqui. Nem acredito que isso está terminando.
- Vamos entrar?
- Medo...
Paulo sabia que ele queria dizer “Estou com medo”, todavia desejava economizar o esforço da fala.
- Mas não podemos esperar aqui fora o dia todo...
Lá de dentro, pelo vidro, uma moça percebeu a presença dos dois. Não aparentavam serem um dos freqüentadores do shopping. Resolveu ver o que desejavam antes que entrassem. Aproveitaria a saída da cliente que acabara de comprar algumas ervas aromáticas para fabricar seus incensos.
- Acompanho você até a porta.
Somente no momento em que a vendedora abriu a porta da loja para que passasse, é que Dora percebeu os dois homens parados à sua frente. Um deles, aparentando mal de parkinsons, olhava profundamente em seus olhos. Parecia reconhecê-la. E ele também não parecia estranho. De onde o conhecia?
- Dora? Sou eu... veja... – e mostrou o tremor nas mãos, como se aquilo pudesse fazê-la lembrar.
Dora olhou para Paulo, tentando encontrar alguma explicação. Não conseguira entender o que o outro estava falando.
Compreendendo o que a moça sentia, Paulo repetiu:
- Ele está dizendo: “Dora? Sou eu... Veja!”. – e prosseguiu, diante do olhar aflito do rapaz. – Ele está procurando por você há algum tempo. Diz que é a única pessoa capaz de levá-lo de volta para casa.
O olhar do rapaz fez com que Dora dissesse que lembrava. Além disso, era estranho o fato dele saber seu nome.
- É você? – Não sabia o que mais dizer, abriu um sorriso e continuou – Nem acredito!
O Rapaz abriu um sorriso e caminhou até a moça, que ainda se encontrava sobre o degrau que acessava a loja. Em vista disso, ao abraçá-la, apertou seu rosto contra a barriga da moça.
Paulo observou o encontro dos dois e não pôde deixar de lembrar de quando o conhecera.
Estava procurando emprego, jornal debaixo do braço. Deixara a estação de trem e, de relance, reparara no rapaz com o olhar perdido no vazio, descalço, cabelos desgrenhados, camisa e calça de algodão, como um pijama barato.
O dia fôra como os anteriores. Deixara cópias do currículo em diversas empresas, mas de concreto, absolutamente nada. Saíra de casa com esperança de arranjar ao menos um bico. Não tinha dinheiro para voltar. O dia findara, o sol já desaparecia por trás dos edifícios do centro da cidade. Atravessou a praça Mahatma Gandhi em direção à Cinelândia. Viu novamente o rapaz, dessa vez sentado em um dos bancos do passeio. Dessa vez, seus olhares se cruzaram.
Paulo não era nenhum prodígio de memória, muito menos era de guardar fisionomias. Mas algo naquele olhar aparvalhado lhe chamara a atenção, desde cedo, na estação de trens.
Enquanto caminhava na direção de onde estava sentado, pois era o caminho por onde seguiria, o rapaz manteve o olhar fixo no seu. Lentamente o jovem foi iniciando um tremor pelo corpo, mãos e pernas. Em poucos instantes, estava caído no chão, debatendo-se em um estertor, que de início Paulo pensou tratar-se de um ataque de epilepsia.
Paulo correu em seu auxílio ao perceber que chocava seguida e violentamente a cabeça no meio-fio. Ao abaixar-se para protegê-lo, percebeu que o rapaz estava consciente. Olhou-o e balbuciou algo que Paulo não conseguiu compreender, mas imaginou que o estivesse pedindo por algum remédio que deveria estar no bolso da camisa, pois sua cabeça se agitava para o lado esquerdo do corpo, com os olhos fixos nos dele.
Paulo apoiou a cabeça do homem nas próprias pernas, e começou a apalpar os bolsos do rapaz em busca do que pedia. Sua língua estava enrolada em direção ao céu da boca, mas ainda assim, insistia em tentar falar. Paulo pediu aos inúmeros observadores que chamassem uma ambulância.
Tentando acalmá-lo, Paulo percebeu que havia um hematoma na cabeça do rapaz, de onde escorria um pouco de sangue. Uma moça sacou um celular da cintura e discou, aparentemente para o Corpo de Bombeiros. Desligou, tocou no ombro de Paulo e disse que chegariam logo.
O rapaz fez um tremendo esforço e novamente balbuciou, mas dessa vez Paulo compreendeu:
- Me ajuda! Me tira daqui... me leva para casa...
Paulo finalmente percebeu que não era um ataque de epilepsia. Parecia algo como um ataque de Mal de Parkinsons. O rapaz estava sóbrio e consciente.
Quase que de modo automático, ajudou o rapaz a erguer-se. Os estremecimentos não cessaram, mas eram cadenciados. Paulo passou um dos braços do rapaz sobre o próprio ombro e começou a caminhar com ele. Não sabia bem por que o fazia, mas o rapaz foi se acalmando. A moça que ligara para os bombeiros indignou-se:
- Você não pode levá-lo. A ambulância já está vindo...
- Estou melhor... só preciso de um pouco de exercício... já, já volto ao normal...
A voz ainda estava embargada, como a voz de quem sofreu um derrame. A língua parecia dobrada na boca. Era visível que fazia um esforço notável para ser compreendido. Paulo resolveu ajudá-lo a chegar em casa.
- Para onde quer que o leve?
- Trem... para casa...
Normalmente, Paulo percorreria o trecho entre o Passeio Público e a Central do Brasil em cerca de vinte minutos. Quase duas horas depois, aproximavam-se do terminal. Era como se estivesse carregando um boneco de molas de setenta quilos. A cada passo que davam o rapaz parecia desequilibrar. Suas pernas mal sustinham o corpo. Somente aí é que Paulo se deu conta de que não tinha o dinheiro da passagem.
 - Não me leve a mal, mas não posso levá-lo até sua casa. Diga em que ônibus o coloco e sigo meu caminho...
- Me leve... para casa... – sua voz continuava arrastada e quase ininteligível, mas Paulo estava começando a compreendê-lo com mais facilidade.
- Eu não sei onde você mora! – estava a ponto de perder a paciência – nem mesmo sei como vou fazer para chegar à minha...
- Do... que... precisa?
- Ora bolas! Dinheiro para a passagem seria um bom começo...
O homem olhou profundamente nos olhos de Paulo. Aquele olhar era profundo e suave ao mesmo tempo. Em momento algum o estertor cessara. Suas roupas estavam encharcadas de suor.
Com a mão direita trêmula, usou os dedos indicador e polegar para apontar os degraus da entrada do Metrô, defronte ao Campo de Santana.
- Me ajude... a sentar ali...
Imaginou que deveria deixá-lo sentado nos degraus, mas o homem manteve a mão esquerda firmemente presa à sua. Ficou ali, de pé ao lado do sujeito que tremia incessantemente, e à essa altura exalava um forte cheiro de suor.
Poucos instantes depois, uma senhora aparentando cerca de sessenta anos surgiu ao pé da escada. Viu os dois homens atrapalhando a passagem e fez menção de retornar. Algo em seu íntimo, entretanto, fez com que abandonasse a idéia de voltar e prosseguiu na direção dos dois. O homem apontou seus dois dedos da mão direita na direção da mulher, como fizera antes com Paulo:
- De... que... precisa?
- Ahn? – a mulher não compreendeu o grunhido.
- De... que... precisa? – repetiu ainda mais pausadamente.
As feições da mulher amainaram. Sorriu e respondeu:
- De nada, meu filho.
- Eu... preciso... duas... passagens... trem... – disse, apontando novamente os dois dedos, polegar e indicador, para a bolsa da mulher.
A mulher estacou diante do homem trêmulo. Estava a ponto de sair correndo e gritando por socorro. Paulo preparou-se para correr. Se a velha gritasse, seguramente seria preso como assaltante.
- Por... favor... – emendou o rapaz.
Alguma coisa naquela frase fez com que a mulher novamente mudasse de idéia. Abriu a bolsa, retirou dois bilhetes ainda unidos pelo picote e entregou-os na mão do rapaz.
Ao receber os bilhetes, o rapaz segurou com as duas mãos a mão da mulher.
- As... mãos... carinho... curam. Às vezes... carinho... tão bom... como remédio caro...
Pegou a mão da mulher e levou até a própria cabeça. Sem saber como reagir, a mulher alisou os cabelos curtos do homem sentado no degrau à sua frente. Seus cabelos eram quase raspados. Chegavam a espetar. Mas a sensação de acariciar o crânio do pobre rapaz foi tão boa, que ela acariciou-a longamente. Aos poucos, os estertores foram diminuindo, como se ele adormecesse. Até que ficou completamente imóvel, novamente com o ar aparvalhado que Paulo vira na estação pela manhã.
Seus olhos agora fitavam o vazio. Era como se estivesse hipnotizado. A mulher olhou para Paulo e comentou:
- Coitado do seu amigo. O que ele tem?
- Não sei. Não o conheço. Estava ajudando-o a chegar em casa, mas não tinha como pagar a passagem...
- Agora tem... – disse a mulher enquanto se afastava, já absorta nos próprios pensamentos.
Paulo pegou um dos bilhetes da mão do rapaz e afastou-se alguns passos. Estacou e retornou. Deixaria o rapaz sentado no banco onde o vira pela manhã. Alguém deveria reconhecê-lo se o deixasse lá.
Puxou o rapaz pelo braço que levantou-se de maneira delicada, sem o menor estertor. Parecia um autômato. Era só empurrá-lo. Os últimos metros até a estação foram passados de maneira tranqüila e suave. Não fizera o menor esforço. Bastava conduzí-lo.
Já deviam ser oito da noite quando sentou o rapaz no banco que o vira pela manhã. Paulo estava com o estômago vazio desde a manhã. Sentia uma fome terrível.
Sentou-se a seu lado enquanto aguardava a chegada do trem. Decidiu que embarcaria no primeiro que chegasse, deixando o rapaz no banco.
A fome apertou ainda mais. Ficou imaginando que o rapaz também deveria estar morto de fome. Provavelmente ainda mais que ele. Olhou seu rosto. Era tão magro. Quantos anos deveria ter? Talvez uns trinta. Talvez menos. A doença poderia fazer com que aparentasse ser mais velho. Ficou penalizado e arrependeu-se de não tê-lo deixado no hospital, logo ali em frente. Lá saberiam tratar dele. Ficou pensando em voltar e deixá-lo lá, mas não teria mais como voltar para casa. Não seria justo abandoná-lo ali, na estação. Poderia ter novamente um ataque daqueles e cair nos trilhos. Resolveu levá-lo para sua casa. No dia seguinte o deixaria no hospital do seu bairro.
Quando o trem chegou, conduziu-o para dentro do vagão e sentou-se a seu lado. A mulher certamente reclamaria. A sogra então, que era quem os estava sustentando, nossa! Falaria pelos cotovelos. Podia até imaginar.
Cerca de quinze minutos depois, os estertores recomeçaram. Do mesmo modo como Paulo presenciara antes. Seus olhos pareciam retomar o brilho, parecia começar a tomar ciência do mundo que o rodeava e, à medida em que se conscientizava, os estertores aumentavam de intensidade. Olhou novamente para os olhos de Paulo e indagou:
- De... que... precisa?
Paulo entendeu que seus pensamentos deveriam estar se refletindo em seu semblante. A situação em casa estava péssima. Havia quase um ano que estava desempregado, vivendo de biscates. Possuía curso técnico de contabilidade, mas desde que a empresa em que trabalhara por dez anos fechara, não conseguiu mais emprego. Entregara a casa em que morava de aluguel e fora morar com a sogra, em Nova Iguaçu. Ele, a esposa e os três filhos dividiam a humilde sala, dormindo no chão.
 - Preciso urgentemente de um emprego... – balbuciou, mais para si mesmo do que em resposta à pergunta do acompanhante.
O trem acabara de encostar em uma estação. Fazendo um esforço sobre-humano, o homem ergueu-se do banco e puxou Paulo para a plataforma.
- Vem comigo...
- Essa não é a minha estação. Vou ficar.
- Pegamos... outro... vem...
Paulo sentiu-se praticamente arrastado para fora do trem. Apesar dos tremores, o homem era bastante forte. Este, ainda segurando a mão de Paulo, torceu a boca em uma careta que o outro entendeu ser um sorriso.
- Eu... pratico... exercícios... o tempo todo... incessantemente...
Paulo sorriu com a piada. Sabia que o outro estava tentando ser agradável. Caminharam para trás na estação. Paulo estranhou. Parecia que o rapaz queria descer unicamente para pegar o outro trem. Apenas para se atrasar.
- Como se chama? – quis saber.
- Não sei...
Encaminhou-se para um banco mais afastado, no final da plataforma.
- Como assim, não sabe como se chama? Sabe onde mora?
- Ainda não...
A resposta fez com que Paulo emudecesse. Sabia que o outro fazia um esforço enorme para falar. Se não queria responder, não insistiria.
Pararam defronte ao banco de cimento da plataforma. Deveriam ser quase nove da noite. Paulo imaginou que chegaria em casa quase à meia-noite.
- Me diga um nome que eu possa chamá-lo.
- João... gosto de João... – fez nova careta e completou – João Ninguém...
Sentou-se e puxou Paulo para que sentasse a seu lado.
- Meu nome é Paulo.
Os tremores não cessavam. João pareceu começar a cair. Paulo fez menção de segurá-lo, mas percebeu que o rapaz abaixava para pegar algo sob o banco. Era um envelope de papel pardo. Entregou-o nas mãos de Paulo.
Paulo examinou o envelope e viu que estava lacrado. Havia uma etiqueta com o endereço de um escritório no centro da cidade.
- Amanhã, às oito... você leva... o envelope... vai conseguir o emprego. Não se atrase...
Paulo ponderou perguntar como João sabia do envelope, mas lembrou que o vira pela primeira vez na estação da Central. Certamente havia deixado o envelope ali, sob o banco, pela manhã. Ao menos teria uma desculpa para dar à esposa e à sogra por ter levado um desconhecido doente para casa: ele lhe prometera um emprego!
Pegaram o trem seguinte e, como Paulo previra, chegaram em casa quase à meia-noite. Da estação de Nova Iguaçu até a casa da sogra, caminharam ainda por quase uma hora. Por sorte, durante a viagem no trem, João voltara a ficar em transe.
Ao chegarem na rua em que Paulo morava com a sogra, João pareceu despertar. Do mesmo modo ao qual o outro estava começando a se familiarizar. Paulatinamente.
Na porta da casa, João caiu ao chão. Sues estertores foram ainda mais fortes que os que Paulo presenciara até então. Da porta, chamou a esposa, que veio correndo. Do chão, João pediu:
- Á... gua...
Só então Paulo lembrou que estavam no mais absoluto jejum desde que se conheceram. Ísis, a esposa, trouxe uma caneca plástica cheia de água. Paulo ajudou o rapaz a beber. Da porta da casa, a sogra observava os homens com olhar desaprovador.
João bebeu a água e pareceu acalmar. Ísis olhou o marido interrogativamente.
- Ele me ajudou a conseguir um emprego. – Mentiu – Está sem comer. Será que sobrou um pedaço de pão?
Silenciosamente, a esposa entrou em busca do que o marido pedira. O cenho franzido mostrava a desaprovação, mas deixaria para discutir o assunto mais tarde, longe das vistas das crianças e da mãe... e do estranho que o marido trouxera.
Esquentou um pouco do café ralo e passou margarina no pão que guardara para o marido. A mãe a observava inquisidora. Estava prestes a repetir que o marido era um vagabundo, que não prestava, mas resolveu poupar a filha naquela noite. Entrou para o próprio quarto e trancou firmemente a porta por dentro.
Ísis retornou para a porta da frente. O homem continuava a sacolejar. Entregou meio pão e uma caneca de café a cada um dos dois e sentou-se no chão, junto a eles. Paulo olhou as próprias mãos enegrecidas de suor e sujeira e decidiu lavar as mãos antes de comer. Pediu que a esposa ajudasse João a se alimentar, pois voltaria logo.
Era realmente uma ajuda inestimável. João não era capaz de segurar nenhum copo de líquido.
Bebeu o café, engasgando e tossindo. Mas recusou o pão.
- Posso... engasgar. Mais... tarde. Obrigado.
Ajudando o homem a beber o café, Ísis se condoeu dele. Deveria ser horrível viver daquela maneira. Não era de se estranhar que fosse tão magro. Gostaria de poder fazer-lhe uma sopa.
- De... que... precisa?
O pensamento estava tão claro, que foi como se respondesse sobre um assunto que estivessem conversando.
- Legumes. E um pedaço de carne.
- Pela... manhã. Pode... ser?
Só nesse instante que se deu conta. Era claro que o pobre miserável não poderia comprar nada daquilo. Por mais barato que fossem os legumes, estava visível que era ainda mais pobre que ela. Sorriu e deu um tapinha carinhoso nas costas da mão trêmula de João:
- Claro.
Quando Paulo voltou, João estava novamente aparvalhado. Levaram-no para dentro, forraram um lençol no chão, junto à parede e o deitaram ali. Paulo contou rapidamente que teria que chegar no centro às oito e que precisaria levantar bem cedo. A esposa resolveu aguardar mais um dia, para que o outro contasse com detalhes o motivo de trazer mais uma boca para a casa da mãe. No outro canto da sala, os dois menores dormiam também no chão. O filho mais velho, de dez anos, dormia no sofá.
Ao acordar, Paulo notou que João já não se encontrava na casa. Melhor assim.
Correu para a estação de trem e pulou o muro.
Por volta das nove horas, bateram na porta da casa. Ísis atendeu e surpreendeu-se ao deparar com João carregando uma sacola. Ainda tremia como antes.
- Seus... legumes.
Não era muito, mas dava para uma boa sopa. Entretanto, preocupou-se com a origem da comida.
Parecendo adivinhar seus pensamentos, João retrucou:
- Não... roubei... Consegue... me... imaginar... correndo... com... uma... sacola?
E emitiu um grunhido com a boca torta, que Ísis entendeu ser uma gargalhada.
A mãe de Ísis surgiu da porta do quarto, evidentemente mal-humorada.
- Ainda está aqui? Agora isso aqui vai virar albergue de cachaceiro? Já não basta o vagabundo?
Ainda sorrindo, João perguntou à dona da casa:
- De que... precisa... para começar... bem o dia?
- Duas coisas: um pão e que você dê o fora daqui.
Sem deixar de sorrir, João abriu a bolsa de compras e retirou um saquinho com alguns pães. Entregou nas mãos da matrona e encaminhou-se chacoalhando para a porta da casa.
Ísis segurou-o pelo braço:
- Volte ao meio-dia, para almoçar, está bem?
- Obrigado... não quero... incomodar...
- Não vai incomodar. Estarei esperando.
João saiu porta afora, balançando todo o corpo.
Ao meio-dia sentou-se no meio-fio, defronte à casa. Estava ainda mais sujo. Ísis pediu ao filho mais velho que lhe levasse um prato de sopa. Da porta de casa viu o pobre homem lutar com a colher e desistir. Deixou o prato sobre a calçada e, como um cachorro, afundou o rosto na sopa. A mulher atravessou correndo a rua para ajudar.
João estava chorando.
- Eu... não consigo... nem comer... sozinho.
Paulo chegou no escritório cujo endereço constava no envelope exatamente às oito da manhã. Durante toda a viagem ficara imaginando o que diria quando chegasse: “Bom dia! Um sujeito me mandou trazer esse envelope e pedir um emprego...”
Aparentemente, João deveria estar com o envelope para entregar ao escritório, a mando de alguém, e o chefe do escritório o contrataria como mensageiro ou algo parecido. Estava bom. Não era o seu ideal, mas no momento, qualquer emprego seria bom.
Era um escritório comercial. Uma secretária na ante-sala atendia como recepcionista. Foi o primeiro a chegar. O escritório abrira às oito.
Mal começou a mostrar o envelope a secretária arregalou os olhos e chamou alguém pelo telefone.
Um senhor apareceu e explicou a Paulo que o contador que estava levando alguns documentos importantíssimos para o escritório teve um enfarto no trajeto e o envelope se perdera. Já estava desesperado, sem saber como faria sem os documentos.
- Você caiu do céu, filho. Só faltaria dizer que está desempregado e que poderia substituir o meu contador...
Paulo surpreendeu-se. Preferiu ocultar o encontro com João, ao menos por enquanto, mas explicou que era Técnico em Contabilidade, que talvez pudesse ajudar.
Talvez pela necessidade, ou pela gratidão. O fato é que o homem contratou Paulo. Em qualquer outra ocasião, o advogado não contrataria um técnico para executar o trabalho de um contador, mas os acontecimentos recentes não eram naturais.
Paulo começou a trabalhar no mesmo instante. Os documentos eram de uma empresa que o escritório estava vendendo. Precisava levar algumas procurações para que os responsáveis pela empresa assinassem. Tarefa simples.
Ana esfregou o rosto na pia com força. Seu filho gritava de dor. O remédio para as dores acabara depois do dinheiro. Fora tentar em vão algum parene que pudesse ajudar, mas em vão. Eram tempos difíceis. Lembrou dos dois bilhetes que encontrara no chão, ao sair do metrô. Fez bem em dar ao rapaz doente.
Sentou na beirada da cama e teve vontade de chorar. O filho sentia dores terríveis no fígado. Era o câncer. Fechou os olhos e lembrou das palavras do rapaz doente. Como se mecanicamente, repetiu o mesmo carinho que fizera no moço. Afagou os ralos cabelos do filho. Teve vontade de cantar. Que mal poderia haver? Cantou.Uma, duas, três músicas. Foi emendando uma música a outra até que perdeu a conta de quantas canções foram. Nem se deu conta em que momento o menino dormiu.

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